CUIDADOS CONTINUADOS I

Sector solidário na base da Rede Nacional

É em 2002 que a prestação de cuidados continuados integrados a pessoas que, independentemente da idade, se encontrem em situação de dependência passa de uma preocupação a um propósito a ser implementado de forma pragmática.
É através da Resolução do Conselho de Ministros (n.º 59/2002, publicado em D.R., n.º 69 de 22 de Maio) que é definida a Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI) para desenvolver respostas integradas de cuidados de saúde e de apoio social.
No entanto, a RNCCI só seria criada quatro anos mais tarde, através do Decreto-Lei n.º 101/2006, de 6 de Junho, como parceria entre os ministérios da Saúde e do Trabalho e Solidariedade Social. Promover a abertura organizacional a novos modelos de cuidados, com incorporação de paradigmas de respostas intersectoriais e multidisciplinares, orientados para a prestação de cuidados numa óptica global de satisfação das necessidades das pessoas que apresentam dependência, com necessidade de cuidados de saúde e de apoio social estava na sua génese.
O novo paradigma preconizado pela Rede tem como princípio e fim a resposta às necessidades existentes de integralidade e continuidade de cuidados, só alcançáveis com a adesão dos profissionais e instituições de saúde e de apoio social. Por isso, a Rede define-se como um modelo de respostas diversificadas, com a participação de diferentes tipos de prestadores e articulada através do desenvolvimento de um processo de contratação da prestação de cuidados. Está em todo o território continental, com as tipologias de cuidados domiciliários e de internamento previstas.
Em termos específicos, as metas da Rede passam pela melhoria das condições de vida e de bem-estar das pessoas em situação de dependência, através da prestação de cuidados continuados de saúde e/ou de apoio social; pela manutenção das pessoas com perda de funcionalidade ou em risco de a perder, no domicílio, sempre que mediante o apoio domiciliário possam ser garantidos os cuidados terapêuticos e o apoio social necessários à provisão e manutenção de conforto e qualidade de vida; pelo apoio, o acompanhamento e o internamento tecnicamente adequados à respetiva situação; pela melhoria contínua da qualidade na prestação de cuidados continuados de saúde e de apoio social.
A RNCCI deve desenvolver-se segundo um modelo progressivo, tanto nos conteúdos, composição organizacional e instrumentos de gestão em saúde, como na complexidade, em articulação entre os ministérios da Saúde e, actualmente, da Solidariedade, Emprego e Segurança Social, com implementação progressiva entre os anos de 2006 e 2016.

OBJECTIVOS VS REALIDADE

Para o final do período de implementação a meta traçada é a das 16.000 camas em Unidades de Internamento, sendo que o relatório final de Implementação e Monitorização da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados, datado de Março de 2013, contabilizava 5.911 camas em 31 de Dezembro de 2012.
Sabe-se, porém, que este número aumentou durante o primeiro semestre de 2013, devendo já rondar as 7.000 vagas nas diversas Unidades de Internamento, mas esses números ainda não são públicos. O SOLIDARIEDADE solicitou junto da coordenadora da RNCCI, Inês Guerreiro, esses números e uns quantos esclarecimentos, mas apesar do contacto estabelecido, as respostas não chegaram ao questionário solicitado por e-mail.
Refira-se que as respostas da RNCCI, em termos de Unidades de Internamento, têm as seguintes tipologias: Unidade de Convalescença (UC); Unidade de Média Duração e Reabilitação (UMDR); Unidade de Longa Duração e Manutenção (ULDM); Unidade de Cuidados Paliativos (UCP). Para além das respostas físicas, há ainda as Equipas de Cuidados Continuados Integrados (ECCI), que têm no apoio domiciliário a sua missão. Neste particular, registava-se, no final de 2012, uma diminuição de ECCI nas regiões do Centro (-11%), em Lisboa e Vale do Tejo (-7%) e Norte (-2%). O Alentejo manteve-se inalterado e o Algarve aumentou uma ECCI. A diminuição a nível nacional é de 4%, sendo que a capacidade das ECCI, reflectida em número de lugares domiciliários na Rede, diminuiu 2%.
A evolução do número de camas disponíveis tem sido crescente desde que a Rede foi oficialmente criada. Nas Experiência-piloto, que decorreram entre Outubro de 2006 e Abril de 2007, foram registadas 898 camas contratadas a Unidades de Internamento que resultaram de estabelecimento de acordos com entidades públicas dotadas de autonomia administrativa e financeira, com ou sem autonomia patrimonial; IPSS e equiparadas, ou que prossigam fins idênticos; e ainda entidades privadas com fins lucrativos.
Das Experiência-piloto saíram também directrizes para o estabelecimento das fontes de financiamento e os mecanismos de distribuição e alocação dos recursos, sob a base de modelos de repartição dos encargos entre os ministérios da Saúde e da Segurança Social e comparticipação do utente nas respostas que contemplam a componente de apoio social.
Para que se percebe a forma como a rede vem crescendo ao longo dos anos, atente-se: Dezembro 2007 – 1.902 camas; Dezembro 2008 – 2.870; Setembro 2009 – 3.784; Novembro 2010 – 4.548; Dezembro 2011 – 5.595; Dezembro 2012 – 5.911.
Salta à vista que o crescimento efectivo do número de vagas em Unidades de Internamento tem vindo a abrandar, ao que não são alheias as dificuldades económico-financeiras do País, e o que pode levar à previsão do não cumprimento da meta traçada para 2016.
Estes números só são possíveis porque desde início a Rede pretende alargar-se o mais possível, e como já foi referido, abriu-se a entidades externas ao próprio Serviço Nacional de Saúde, fossem elas IPSS ou equiparadas ou organismos privados com fins lucrativos.

Para isto muito contribuiu o Programa Modelar, que constitui uma comparticipação financeira do Estado, a fundo perdido, às IPSS na criação/adaptação de Unidades de Internamento de Cuidados Continuados Integrados para a RNCCI.
Neste particular as Misericórdias levam um avanço tremendo relativamente a todos os demais agentes que a jusante trabalham a Rede.
Assim, as Misericórdias representam 50% da Rede (com 2.795 camas contratualizadas), as IPSS 21% (1.247), significando que o sector solidário representa 71% do total de acordos celebrados e a contratação de 4.042 camas, ou seja, 68,4% da oferta.
Quanto ao resto da oferta, o SNS abrange 11 % do total de acordos celebrados, com a contratação de 8,1% da capacidade instalada da RNCCI, com 480 camas. Por seu turno, as entidades privadas com fins lucrativos representam 18% de acordos (com 1.389 camas contratadas), numa percentagem de 23,5 da capacidade instalada da Rede.
Registe-se que, até ao último dia de 2012, o número total de utentes referenciados desde o início da RNCCI era de 135.047 utentes, enquanto o número de assistidos era de 129.780 utentes, significando que a Rede assistiu 96,1% dos utentes referenciados.
No entanto, a realidade continua a desafiar a Rede, pois atendendo ao impacto do envelhecimento da população, à mudança do perfil de patologias, às situações de dependência e de fragilidade com alta necessidade de apoio social e familiar e à mudança do perfil das famílias, há que atender às novas necessidades e encontrar novas formas de cuidados.

 

Data de introdução: 2013-11-11



















editorial

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Sucede que a falta de motivação das IPSS para colocarem a sua rede de ERPI ao serviço do escoamento das situações de internamento hospitalar inapropriado, nas condições atualmente em vigor, se afigura amplamente justificada (...)

Não há inqueritos válidos.

opinião

PAULO PEDROSO, SOCIÓLOGO, EX-MINISTRO DO TRABALHO E SOLIDARIEDADE

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