APURO, PORTO

Apoiar artistas carenciados e promover o voluntariado cultural

É uma ideia que anda a ser apurada há, pelo menos, um ano, e tem como grande enfoque apoiar intermitentes do espectáculo em situação de carência, sobretudo actores, mas não só.
Pelas características próprias da profissão, muitos trabalhadores do espectáculo vivem uma situação laboral de grande precariedade, imprevisibilidade e insegurança. Um espectáculo pode assegurar ocupação e rendimento durante três, quatro meses, mas, muitas vezes, é necessário esperar outro tanto período de tempo até que novo trabalho surja.
Foi por isso que Rui Spranger, actor e encenador, decidiu congregar esforços e pôr em prática uma ideia antiga que, no momento presente, talvez mais do que noutro, ainda faz mais sentido. Assim, no final de Fevereiro, nos Maus-Hábitos, no Porto, foi publicamente apresentada a Apuro – Associação Cultural e Filantrópica, que com, pela e através da Cultura quer ajudar todos aqueles que vivendo dela se vêem privados de uma vida digna e plena.
“A Apuro é uma associação sem fins lucrativos, que pretende, por um lado, promover a produção cultural, sobretudo nos campos do teatro, da poesia, do cinema e das edições (teatro, poesia e ensaio), e, pela sua faceta filantrópica, pretende apoiar intermitentes do espectáculo em situação de carência, através de, por exemplo, gabinete de psicologia, gabinete jurídico, disponibilização de informação gratuita em diversas instituições e também promover a sua junção para formarem uma equipa de produção que produzirá espectáculos próprios, cujas mais-valias são para eles”, começa por explicar Rui Spranger, que ressalva um conceito que a Apuro quer dinamizar: “As pessoas que são apoiadas pela associação estabelecem um contrato em que cedem horas para praticar voluntariado cultural junto de IPSS, outras associações com fins semelhantes ou ainda de outros cidadãos carenciados”.
Para a Apuro – que arranca com um núcleo duro de poucas pessoas, mas que na sessão de apresentação angariou uma boa quantidade de sócios e amigos –, “é muito importante estimular o voluntariado cultural, que existe muito pouco em Portugal”, sustenta Rui Spranger, especificando: “O que queremos é estimular esse voluntariado cultural e levá-lo a lares de terceira idade, junto de crianças carenciadas e dos sem-abrigo, etc… A ideia é estabelecer alguns protocolos, para que, depois, a coisa se possa expandir e, então, a Apuro comece a ser conhecida e as próprias instituições nos solicitem actividades neste âmbito do voluntariado cultural”.
Nesse sentido, mais do que estar a apresentar um cardápio de espectáculos, os responsáveis pela Apuro querem que sejam as próprias instituições a solicitar algo concreto de acordo com as necessidades dos seus utentes.
“Mais do que estarmos a estabelecer um programa a desenvolver com essas instituições, que trabalham com os seus utentes e sabem melhor o que eles precisam, a ideia é que elas nos contactem e, então, nós tentarmos perceber com elas o que seria mais interessante desenvolver naquela instituição em concreto… Pode ser contar um conto, fazer um recital de poesia, fazer um pequeno concerto, dar uma formação… Mas o mais interessante era poder estabelecer com as outras instituições o tipo de voluntariado cultural que pretendem e necessitam”, esclarece o mentor da Apuro.
Resgatar de situações de carência estes intermitentes do espectáculo é a grande motivação da Associação Cultural e Filantrópica, pois “trata-se de uma franja da população formada por trabalhadores a recibo verde, que têm a particularidade de a sua profissão obrigar a uma intermitência”, sustenta Rui Spranger, justificando: “Há sempre períodos de quebra e esta instabilidade leva muitas pessoas a abandonar e provoca depressões e angústias”.
Acender os holofotes da vida a estes agentes culturais em situação de carência e, depois, levá-los a iluminarem, com o seu voluntariado cultural, as vidas de quem está institucionalizado é a plataforma que a Apuro quer criar, tendo a Cultura por fundamento.
Elaborar e produzir projectos culturais, nas áreas do teatro, da poesia, do cinema e das edições é um dos grandes objectivos da Apuro que, para tal, tem já alguns espectáculos programados.
O arranque deu-se no Pinguim Café, em Fevereiro, com «Actores na Tela», cujo primeiro convidado foi Valdemar Santos, que teve moderação de Ângela Marques e a criação do artista plástico Nuno Macedo.
“No espectáculo «Actores na Tela» a ideia é, uma vez por mês, fazer homenagem a um actor. Assiste-se a pequenos trabalhos do prórpio, alguém que o conhece bem fará moderação e conversará com ele e haverá ainda um artista plástico a elaborar uma obra a partir dessa noite, que depois dará uma exposição”, explica Rui Spranger, esclarecendo: “É um actor convidado, com um percurso marcado, sobretudo, do ponto de vista teatral, e digo isto porque depois há a exibição de toda uma série de curtas-metragens e cinema, que as pessoas não têm tanto contacto”.
Para protagonizar o «Actores na Tela», em Março, no Sobre o Porto, a actriz convidada é Catarina Lacerda, em Abril será Pedro Lamares, em Maio a escolhida será Sandra Salomé e em Junho o actor Rui Pena, os três últimos em locais ainda a designar.
Mas há já outras iniciativas agendadas, como, em Abril, no Pinguim Café, um espectáculo de poesia a partir da obra de Jorge Velhote, ou, em Maio, no mesmo local, a estreia absoluta de uma peça de teatro, «A Vingança de Laertes», de Paulinho Oliveira.
A cerimónia de apresentação da Apuro teve um Porto de Honra e a participação musical de Rui David, que animou as hostes enquanto muitos preenchiam a ficha de filiação na associação.

APURO… DE UMA PEÇA

Sobre o nome escolhido para a associação, Rui Spranger refere a variedade de significados relacionados com o que se pretende da Apuro, mas identifica o elemento que determinou a escolha do nome: “No Dicionário do Teatro, publicado em 1908 ou 1909, por Sousa Bastos vem uma expressão que é «Apuro de uma peça». É uma expressão que ainda hoje se utiliza e Apuro é o melhoramento, é a afinação final da peça, é, no fundo, tornar tudo puro… E, depois, como a palavra Apuro tem muitos significados, quer dizer também estar em apuros, que tem tudo que ver com o propósito da associação, é também a avaliação de um resultado, porque é importante também avaliarmos o trabalho que fazemos… Neste particular, tem muito que ver com a avaliação do voluntariado cultural, do resultado que obteremos com as pessoas que apoiarmos”.

Pedro Vasco Oliveira (texto e fotos)

 

Data de introdução: 2013-03-15



















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