EDITORIAL

Festa da Flor

1. Ainda passavam imagens arrasadoras, com as águas a levarem tudo à sua frente e a deixarem para trás corpos humanos, destruição e dificuldades sem monta, quando foi definido um objectivo claro: na Madeira, em Abril, haverá a “Festa da Flor”!
Nada de bloqueios: mãos à obra! O tempo escasseia: enterrados os mortos, urge reconstruir. A Madeira voltará a ser um jardim a florir. Algumas flores acentuarão um tom marcadamente roxo, mas serão flores no meio de um jardim que já é sonhado por todo um povo. Tem de haver festa.
Lição eloquente!
É certo que ainda as chuvas arrastavam destroços e pedregulhos misturados com corpos quando apareceram algumas vozes de “orçamentistas” a gaguejar os seus méritos pelas previsões que outrora fizeram e guardaram na esperança de um azarado momento para as arremessar, quais cálculos de sábios “engenheiros de obras feitas”. Também surgiram vozes a reclamar uns quantos dividendos a serem expressos em votos numa qualquer “colheita eleitoral”. Porém, depressa as águas se encarregaram de lançar essas vozes para o meio dos escombros.

Enquanto as mãos se davam mutuamente, bem mais alto se ergueram as vozes da coragem, da solidariedade e da sensatez.
Choraram-se e enterraram-se os mortos. Deram-se passos de rápido reencontro. Calou-se o pranto. Enterraram-se os machados de guerra porque se impõe reconstruir. Arrancou a azáfama.
Este é o tempo da “recomposição do jardim” para aí serem lançadas outras sementes de paz, outras sementes de harmonia, outras sementes de um futuro que se constrói com lágrimas de dor e de esperança.
Antes da festa, a Madeira vai começar a “florir”.
Os madeirenses semeiam com lágrimas, é certo. Colherão cantando a honra dos seus mortos.
As vénias de todos aqueles que acreditam que “o melhor do mundo é sempre as pessoas”. Todas as pessoas.
E o melhor é um fruto que se colhe quando se sonha o bem, o belo e o bom.

2. Na Madeira, que também é Portugal, a catástrofe não se fez anunciar: aconteceu mesmo. E o povo já tem a festa marcada…
Mas por Portugal parece que nem os ventos correm de feição nem as vozes anunciam alvíssaras.
É tempo de crise. De uma crise que parece eternizar-se. Crise global. Crise de valores. Crise de ética.
Uns vaticinam a eminência de uma catástrofe ao mesmo tempo em que outros julgam guardar nos seus bolsos o país das maravilhas. Entretanto, cada novo dia reserva uma pior surpresa, um novo escândalo, uma nova confusão. E o futuro faz negaças.

O mal é capaz de andar exactamente por aí. Para além de que “quem anuncia ventos colhe tempestades”, o “diagnóstico” revela alijamento das responsabilidades presentes, uma quanta aversão ao sentido de transcendentalidade, a desvalorização do serviço da causa comum, um domínio que se estabelece para ser invisível mas eterno, endividamento excessivo, permanente procura do mais fácil e provavelmente excessivo, alguma “inflação de personalidade”, uma teimosa inversão de prioridades, alguma doentia procura e exploração de tudo o que é negativo, a subida que se sonha sempre e só numa via de ascensão contínua, tendência irreversível para a perda de alguns valores, alguma vivência do imediatismo com a perda do sentido da memória futura. Numa palavra, a desvalorização da ética.
Será essa a nossa sina? Até quando?
E não se pense que isso acontece só aqui ou só acolá. É bem capaz de atravessar muitos espaços e não sobrarem muitos imunes. E os mais atingidos pela moléstia poderão não ser aqueles que é mais fácil atingir.

3. Na Madeira, ainda as águas não tinham regressado aos seus leitos e já por lá se anunciava a “Festa da Flor”.
A lição da Madeira é desafiante. E pode ser seguida!
Mesmo quando os ventos não são de bonança, impõe-se o anúncio de objectivos com alguma mistura de utopia e viabilidade. E com sedução e envolvências.
Mesmo quando há divergências, descubram-se os consensos e enterrem-se os machados de guerra.
Elevem-se as vozes da confiança, da coragem, da determinação, do reencontro, da sensatez e da solidariedade.
Sonhe-se o bem, o belo e o bom.
Construa-se eticamente o futuro. Com todos e para todos.
Viva-se a ética.

Padre Lino Maia, Presidente da CNIS

 

Data de introdução: 2010-03-09



















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