A Silly Season

1 - Acabo de regressar da Galiza, onde passei, como vem sucedendo na última dúzia de anos, as férias de praia.

Já comentei nestas crónicas o reconforto que representa ir para um outro país e sentir-se a gente como se estivesse em casa.

Sempre se varia, muda-se de ares, como é bom fazer em férias. Mas permanece o conforto interior de não se alterarem muito os hábitos, de mantermos a língua, de nos reconhecermos no clima, na paisagem, nos costumes, o que sucede nesse bocado de Espanha que como que prolonga Portugal para norte, e que com o Norte de Portugal constituiu a província romana da Gallaecia.

Ainda há dias se discutia uma proposta de responsáveis autonómicos no sentido de na Galiza passar a vigorar a hora portuguesa, por o seu fuso horário ser o mesmo que o nosso, em vez da hora castelhana, uma hora mais tardia – proposta que não veio a merecer o acolhimento do Governo de Madrid.

Nos jornais, os temas da sociedade e da política que marcam a agenda, como agora se diz, são também idênticos aos nossos: a violência doméstica, as adopções por famílias monoparentais, a desordem urbanística, a corrupção autárquica, os investimentos públicos e a sua desigual afectação às diferentes regiões; e, evidentemente, a crise económica.

Um pequeno exemplo ajudará a perceber por que razão, estando na Galiza, parece que não saímos de Portugal:

No passado dia 31 de Agosto, “La Voz de Galicia” publicava uma pequena crónica, na última página, de Luís Ventoso, que não estranharíamos ver editada num jornal português de referência.

Em tradução livre, aqui ficam alguns excertos: “A informalidade é o vírus da Galiza. Que um qualquer dono de botequim demore 20 minutos a perguntar-te o que queres e mantenha o seu filho de 12 anos como empregado, a partir em fatias o lombo de porco, ninguém estranha. Que não exista povoação onde as casas se não encontrem fora dos alinhamentos revela que alguém decidiu, com a cumplicidade dos vizinhos, que as normas existem para não serem cumpridas. Que existam centenas de autarcas que murmuram algo como “se faço respeitar a lei não votam em mim” denota uma classe política sem horizontes… O fraguismo [de Fraga Iribarne, anterior Presidente vitalício do Governo Regional] encaixou bem nesta idiossincrasia. Encheu-nos de leis, mas que não incomodavam: toda a gente sabia que aquilo não era para levar muito a sério e que sempre haveria um buraco para a trapalhada afectuosa do cacique amigo.”

2 – Este ano notei, pela primeira vez, um aumento sensível dos preços, de forma muito mais nítida do que sentira no meu país.

Habituado – e por boas razões – a encarar com cepticismo as notícias optimistas com que o Governo, no ritmo frenético que o caracteriza, nos procura ajudar – para se ajudar a si próprio, é certo – a não ver a crise, confesso que levei à conta da normal propaganda o anúncio de a inflação recente em Portugal ter tido um desempenho muito positivo no quadro europeu, com uma taxa, embora em crescimento, bastante inferior à taxa média da União Europeia.

Salvo erro, e se bem recordo os dados publicados, a segunda taxa mais baixa dos 27, na mais recente avaliação, era a nossa.

Ora, e nesta forma empírica de sentir a crise, que é sentir como ela nos afecta o bolso, a minha impressão é a de que desta vez a propaganda não fugiu à verdade – o aumento dos preços, na Galiza, do ano passado para este, foi sensivelmente superior ao que se verificou em Portugal.

3 – Durante os 15 dias de ausência, ia acompanhando pelos jornais portugueses o que se passava por cá.

Também em 2008 se repetiu o que tem sido o panorama de criminalidade violenta que tem marcado o mês de Agosto – e que levou à demissão, no seu tempo, do Ministro da Administração Interna, Dr. Fernando Gomes, que sucedera ao Engº Eurico de Melo no lugar simbólico de Vice-Rei do Norte, e cujo lugar se encontra vago desde então.

Assaltos a bancos, com sequestro e mira ad hominem dos GOE, ou a bombas de gasolina, seja em lugares recônditos, seja em plenas áreas de serviço de auto-estradas de grande movimento, com a invariável retirada das caixas de Multibanco, ou esperas sofisticadas a veículos de transporte de dinheiro, têm marcado o panorama estival da nossa terra.

E, embora alguns círculos assaquem mais à falta de notícias que caracteriza o mês de Agosto e à necessidade de preencher espaços nos jornais e na Televisão o relevo que assume a notícia de tais crimes, o certo é que eles ocorreram mesmo, e com sinais de organização, de violência e de desprezo pela vida de cidadãos pacíficos a que felizmente não estávamos habituados.

Tal cenário não o tenho visto na Galiza, onde a criminalidade mais visível e organizada se encontra ligada ao narcotráfico e aos gangs que controlam as rotas de entrada da cocaína nas Rias Baixas, tendo essa Região sido relativamente poupada ao terrorismo e à violência da ETA.

4 – Este cenário de violência, que causa justificado temor nas pessoas, é muitas vezes utilizado pelas autoridades do Estado para acentuarem os mecanismos e os instrumentos de controlo da vida e do dia-a-dia dos cidadãos, a pretexto de melhor garantirem a sua segurança.

(Há sempre boas razões e bons pretextos para tudo …)

Conduzindo a que os cidadãos acabem por somar ao medo dos outros – nunca adivinhando se levam um tiro ao virar da esquina ou se são sequestrados quando vão fazer um depósito a um banco, ou se um bando lhes invade a casa – o medo da polícia ou das autoridades – não sabendo também nunca o que os espera quando vão parar a uma esquadra ou que big brother informático ou câmara de vigilância lhes anda a vasculhar a vida ou os passos.

Na resistência civil ao arbítrio do poder, pelo que tenho visto, os galegos são bem diferentes de nós.

Acompanhei de perto, há alguns anos, o que foi a tragédia ambiental do derrame do petróleo do Prestige – que pensei que me iria deixar sem poiso de praia.

Mas pude igualmente testemunhar o voluntariado verdadeiro – não como o chinês nos Jogos Olímpicos – de milhares de galegos, e outros espanhóis, e estrangeiros, em brigadas de limpeza, que em alguns meses deixaram as praias em condições de utilização, permitiram a retoma da faina da pesca e reabriram as rochas às gaivotas.

E dei-me também conta da revolta cívica que, descobrindo no Governo Regional responsabilidades na gestão política das questões ambientais, por ocultar os verdadeiros efeitos dessa catástrofe, não deu um momento de tréguas a Fraga Iribarne – que parecia ser, como já disse, chefe perpétuo do Governo Regional –, até conseguir afastar do poder o seu Partido Popular e confiá-lo ao que chamam o bipartito: a coligação entre o Partido Socialista da Galiza e o Bloco Nacionalista Galego, que ainda hoje governa.

Como todos recordamos, também os atentados da Al-Qaeda em Madrid, no 11 de Março, e a imputação deles feita pelo Governo de então à ETA, por puras razões de oportunismo político de Aznar, conduziram à derrota eleitoral do PP. Constituindo, como no caso do Prestige, um saudável exemplo da tradição espanhola de punição de governantes que mentem, ou que pretendem enganar os governados – tradição de exigência cívica que infelizmente nos falta.

Ainda agora, chegado de férias, percebo que passou no crivo do Presidente da República a proposta do Governo de restituir à nossa infeliz tradição autoritária e anti-liberal o émulo contemporâneo do Intendente Pina Manique, a Autoridade de Segurança, na dependência do Governo, concentrando as centrais de informação de todas as polícias, quer das abertas, quer das secretas – e isso é uma ameaça às nossas liberdades.

A questão é que, em vez da revolta e da iniciativa, em vez de organizar uma acção política eficaz, em vez de nos defendermos, como em Espanha, ficamos na varanda, a ver.

Quando muito, disparando por vezes umas farpas displicentes e diletantes.

Como eu, nestas crónicas.

* Presidente da Associação Ermesinde Cidade Aberta

 

Data de introdução: 2008-09-08



















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