ISABEL JONET, PRESIDENTE DA FEDERAÇÃO DOS BANCOS ALIMENTARES

Bancos Alimentares Contra a Fome servem para combater o desperdício

Maria Isabel Torres Baptista Parreira Jonet, nasceu em Lisboa a 16 de Fevereiro de 1960, é casada e tem cinco filhos. Licenciou-se em Economia em 1982, na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa. Desde 1993 trabalha em regime de voluntariado no Banco Alimentar Contra a Fome, sendo actualmente Presidente da Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares Contra a Fome, Presidente do Banco Alimentar Contra a Fome de Lisboa e Membro do Conselho de Administração da Federação Europeia dos Bancos Alimentares. Nessa qualidade apoiou a criação dos 11 Bancos Alimentares portugueses.
É fundadora e Presidente da ENTRAJUDA, instituição de apoio a instituições de solidariedade social numa óptica de gestão e organização. Trabalhou no Comité Económico e Social das Comunidades Europeias, em Bruxelas, entre 1987 e Julho de 1993. Foi adjunta da Direcção Administrativo-Financeira da Sociedade Portuguesa de Seguros entre Março de 1983 e Dezembro de 1986 e da Direcção Financeira da Assurances Général de France em Bruxelas em 1987.

SOLIDARIEDADE – Como é que, sendo economista, abraçou esta causa da solidariedade e do voluntariado, em 1993?
ISABEL JONET
– Eu acho que foi mesmo por ser economista. Por razões de ordem familiar eu regressei da Bélgica, onde vivia, e decidi parar em termos profissionais durante uns tempos, para ajudar os meus filhos a integrarem-se no sistema de ensino português. Colaborava com a DG10 na Comissão Europeia mas sobrava-me tempo que decidi oferecer ao projecto do Banco Alimentar. Não fui eu que fundei o Banco Alimentar. Foi o Comandante José Vaz Pinto em 1992. Eu entrei nessa equipa em 1993.

SOLIDARIEDADE – Está no Banco Alimentar Contra a Fome desde então. O que a fez ficar até hoje?
ISABEL JONET
– Isto foi uma opção de vida. Sinto-me realizada, quer do ponto de vista profissional quer do ponto de vista pessoal. Ao fim destes anos todos, e apesar de ser presidente do Banco Alimentar, continuo sempre a visitar instituições. Sou eu quem faz, todos os meses, a distribuição dos alimentos. Muito facilmente nos distanciamos do que é o mundo real. Atrás de um computador transformamos rapidamente pessoas em números. Eu faço questão de ir aos bairros para não perder essa proximidade com as pessoas. É isso que me mantém aqui. Eu vejo como as pessoas vivem mal e sinto que através do meu trabalho no Banco Alimentar Contra a Fome essas pessoas podem viver um pouco melhor.

SOLIDARIEDADE – O Banco Alimentar Contra a Fome é uma ideia que funciona. Não é, no entanto, frustrante sentir que a realidade da pobreza em Portugal se mantém ou até se degrada...
ISABEL JONET
– Os Bancos Alimentares contra a fome não existem para dar de comer a quem tem fome mas para lutar contra o desperdício. Os 11 bancos seleccionam no terreno instituições de solidariedade social (ISS) que dão de comer a quem tem fome. Nós somos grossistas. Vamos buscar onde sobra para entregar onde falta. O que nós exigimos às instituições, com quem fazemos acordos de parceria, é que respeitem os critérios de distribuição, acompanhem as famílias, visitem as famílias, não reintroduzam os produtos no mercado, etc., etc.. Não há insucesso. Basta ver as toneladas de alimentos recolhidas todos os anos junto da indústria agro-alimentar, da agricultura, dos mercados abastecedores. Ainda há dias assinei um protocolo com o Banco Santander/Totta para recuperarmos todo o peixe que é deitado ao mar. São três mil toneladas por ano que são atiradas fora por razões meramente comerciais para não baixar o preço no mercado. O grande escândalo é a falta de respeito pelo trabalho de todos os agentes daquela actividade. Os pescadores, que têm vidas difíceis, vêm o seu trabalho deitado ao lixo. Muitas vezes eles mesmos têm grandes necessidades.
O mais gratificante para mim, para além das toneladas de alimentos que recolhemos, para além da grande mobilização de voluntários que temos conseguido, para além disso tudo, é o envolvimento. Vir a uma campanha do Banco Alimentar Contra a Fome, aqui em Lisboa, por exemplo, é do mais comovente que há. Tem pessoas de todas as idades, de todas as classes sociais, de todas as cores, de todos os credos, de muitas nacionalidades a trabalharem lado a lado por uma causa comum. De seis em seis meses cá estão sem a gente as convocar. Trabalho aqui todos os dias. Quase todos os dias me comovo. A relação com estas pessoas e com as instituições é o nosso bem mais precioso. Há uma relação de confiança que leva instituições a virem ter connosco na hora das aflições. Sabem que têm em nós um amigo que dá resposta aos problemas e não cobra nada.

SOLIDARIEDADE – De certa forma acaba por provar que Portugal é um país de solidariedade...
ISABEL JONET
– Eu sou mais adepta da caridade do que a solidariedade. A caridade é muito mais. A palavra está desvirtuada por ter uma conotação religiosa, mas para mim a caridade é a solidariedade com amor. Com entrega de si mesmo. A grande diferença é que caridade é amor e solidariedade é serviço. Portugal ainda é um país de caridade... O que aconteceu em grande medida é que a caridade teve que se transformar em solidariedade para ter acesso às verbas do Estado.

SOLIDARIEDADE – No Banco Alimentar descobriu que há outras formas de ajudar pessoas...
ISABEL JONET
– Como eu vou aos bairros conheço bem a forma como as instituições trabalham. Devo dizer que tenho a maior admiração pelas pessoas que estão à frente das instituições e vejo que elas se deparam no dia a dia com dificuldades tremendas por que não têm conhecimentos ao nível da gestão. São pessoas que têm escassos recursos à sua disposição e não os sabem utilizar correctamente. Com a minha experiência de economista e com a minha experiência aqui decidi criar a Entrajuda que pretende dotar as instituições com estrutura de gestão competente. Vem complementar toda a acção que é desenvolvida pelo Banco Alimentar Contra a Fome. Neste momento estou envolvida nesse projecto que foi criado há um ano e meio e tem tido um sucesso surpreendente.

SOLIDARIEDADE – Essa é uma actividade que algumas empresas perseguem...
ISABEL JONET
– Desde que o façam como nós a custo zero... A Entrajuda propõe fazer o mesmo que os Bancos Alimentares Contra a Fome fazem com os produtos alimentares, mas com serviços que vão contribuir de uma forma estruturante para as instituições libertarem recursos que podem afectar a outros sectores de interesse para a comunidade. Tem sido um projecto fascinante. Eu tinha medo que as instituições não acolhessem bem esta ideia até por receio de perderem algum poder. Foi bem acolhida pelas instituições e pelas empresas parceiras. As empresas têm nos seus orçamentos verbas consignadas para a responsabilidade social que acabam por atribuir a instituições e projectos que não conhecem e não controlam. Acabam por escoar verbas que não servem para nada. Quando muito servem para despesas correntes e para diminuir défices. Nós propomos às instituições um melhor funcionamento. Muitas vezes as instituições em busca de financiamentos alternativos desvirtuaram o seu objecto estatutário. Quantas instituições criaram empresas de inserção só para se financiarem, desviando-se daquilo que é o seu rumo?

SOLIDARIEDADE – Essa intervenção pressupõe alguma crítica à forma como as instituições têm funcionado...
ISABEL JONET
– Sim... Os gestores, presidentes e responsáveis têm que aceitar o que lhes é proposto. Nós fizémos um questionário em que as instituições do universo do Banco Alimentar Contra a Fome de Lisboa podiam candidatar-se à ajuda em áreas técnicas específicas. Em três semanas tivemos 193 inscrições. Eu achei que não ia ter respostas... Os próprios responsáveis das ISS sentem que a sua gestão não é a correcta e, no entanto, todos os meses recebem subsídios da Segurança Social. Temos um plano de apoio que passa por elaborar um diagnóstico. Para cada instituição há um tutor, um voluntário, um gestor muito qualificado, que vai à instituição e faz o diagnóstico. São pessoas disponibilizadas por empresas, ao abrigo do programa voluntariado-empresa, e que a Entrajuda coloca nas ISS. Há exemplos em que uma empresa, tendo todas as áreas de intervenção, se responsabiliza por uma instituição. Sempre em consonância com as direcções e sempre tendo em vista a missão e vocação da ISS. O tutor propõe com a Entrajuda um plano de acção e recuperação daquela instituição.

SOLIDARIEDADE – Isso é um plano nacional a longo prazo...
ISABEL JONET
– Há-de ser um plano nacional. Quando vimos que havia tanta procura e que era tão necessário - porque as instituições estão num estado de gestão de tal forma deficiente e deficitário -, decidimos alargar a Entrajuda a todo o país. Há instituições que transportam crianças sem ter seguros, há as que não têm um mínimo de regras de segurança e higiene alimentar e servem refeições, etc., etc.... Decidimos, por isso, formatar produtos. E de uma forma transversal criámos produtos que podem ser comuns às várias instituições de solidariedade. Estamos a tentar criar regras, procedimentos e modelos comuns. Por exemplo, na webização, nos seguros, no apoio jurídico... Ajudar as instituições a arrumar as suas casas numa óptica de gestão.

SOLIDARIEDADE – Se isso resultar em pleno a Entrajuda fica como uma espécie de representante das instituições, com um poder considerável...
ISABEL JONET
– Nós não queremos isso... A Entrajuda não pretende ser uma fonte de poder. E não é. O que se faz é uma ponte entre instituições que necessitam de ajuda por áreas e empresas e pessoas que querem dar o seu conhecimento e o seu tempo por uma causa em que acreditam, durante um determinado período de tempo. É uma intervenção pontual fazendo com que as instituições tenham uma gestão organizada e sustentada no tempo. Nós fazemos um diagnóstico, propomos um plano de acção, determinamos o tempo necessário para a intervenção e depois faz-se uma avaliação e acabou.

SOLIDARIEDADE – Porque é que esse plano não está a ser feito de acordo com a CNIS, as Mutualidades e as Misericórdias?
ISABEL JONET
– É uma boa ideia, mas neste momento ainda estamos a estruturar os produtos todos. Temos que ter as ferramentas completamente apuradas para depois as disponibilizarmos para quem quiser. A Entrajuda nem sequer quer ser detentora exclusiva dessas ferramentas. Todos vão ter acesso a tudo. Estamos a conceber uma mega-base de dados que se chama “Respostas sociais em rede” em que pretende fazer um repertório de todas as respostas sociais por valência para o país inteiro. Será agrupado por distrito, concelho, freguesia e tipo de valência. Quando, por exemplo, se pretende encaminhar uma pessoa que vai procurar ajuda alimentar o sistema informa quais são as instituições que, em determinada zona, dão apoio alimentar. O mesmo é válido para assistência a crianças, lares de idosos... O Ministério da Segurança Social tem uma coisa semelhante que é a Carta Social mas que não é dinâmica e não está actualizada.

SOLIDARIEDADE – Isso é um instrumento político importante...
ISABEL JONET
– Não queremos que seja. Eu já provei o suficiente à frente do Banco Alimentar Contra a Fome para se perceber que não temos de todo esse ideal. O que pretendemos é ajudar as pessoas que precisam. Entendemos que a forma de combater a pobreza em Portugal e ajudar as pessoas que precisam é através das ISS.

SOLIDARIEDADE – Por um lado critica as Instituições de Solidariedade Social mas por outro afirma que elas são a única forma de resolver os problemas sociais... Reconhece o esforço das instituições mas quase afirma que em grande medida é um desperdício...
ISABEL JONET
– É por isso que nasceu Entrajuda. Esse esforço é fantástico mas pode ser potenciado. É preciso colocar ferramentas que são dominadas pelos gestores e empresas e colocá-las ao serviço das instituições. Permitir que haja uma maior conjugação entre as necessidades das instituições e as competências, as capacidades das empresas e pessoas de boa vontade que querem ajudar. As instituições, dada a sua proximidade, o conhecimento de cada caso, o acompanhamento e atenção desempenham um papel insubstituível. A grande mudança é o investimento na sua “capacitação”.

SOLIDARIEDADE – O Estado, através dos acordos de cooperação, delega nas instituições a intervenção e acção social. Considera que por essa via há também uma desresponsabilização?
ISABEL JONET
– No social o Estado faz mal. O Estado deve financiar estruturas e serviços mais próximos das pessoas em vez de ser ele a fazê-lo. Por exemplo, na área das crianças e jovens em risco o Estado podia conceder a gestão das casas de acolhimento à iniciativa privada, financiando. O que se vê hoje em dia é que há equipamentos que funcionam de forma deficitária que em vez de prepararem os jovens para uma vida diferente estão a criar pré-delinquentes. Não são eficazes. O Estado deve financiar exigindo certificação, competência e avaliar desempenhos.

SOLIDARIEDADE – A comparticipação financeira é feita da mesmo forma para todos...
ISABEL JONET
– Per capita. O que é incorreto. Um lar de idosos que funciona como armazém de pessoas recebe o mesmo que um lar que dinamiza actividades. O Estado não se pode demitir do seu papel de financiador, mas deve acautelar a forma como é utilizado o dinheiro.

SOLIDARIEDADE – Há uma tendência de mudança de critérios no financimento. Em vez de se entregar o dinheiro às instituições há quem defenda que ele deve ser dado às famílias...
ISABEL JONET
– Não concordo nada. Veja-se o que se passa no Rendimento Social de Inserção. É uma medida necessária mas é muito dificil de controlar e fiscalizar e pode por isso ter muitas fraudes. O Estado deve pagar serviços que são prestados às famílias. Recordo-me das Casas do Povo em que era levado à família o que ela necessitava, mas era fornecido em géneros, remédios, roupa, comida... O Estado deve pagar às instituições, e refiro-me a todas... IPSS, Misericórdias, Mutualidades, as 4 mil e 500 que dizem que existem, o que eu duvido, em actividade devem ser menos.

SOLIDARIEDADE – Outra das tendências é a municipalização...
ISABEL JONET
– A autarquização... Sou muito renitente. As autarquias estão muito ligadas aos poderes públicos. Corre-se o risco de só se ajudar pessoas e famílias que
são da cor política. Eu defendo que, mesmo no caso em que a ajuda é prestada pelas autarquias, através das redes sociais, devem ser as instituições os parceiros privilegiados e independentes. As instituições não podem ser obrigadas a divulgar dados pessoais das famílias que apoiam para, a troco disso, as autarquias enviarem cartas com programas eleitorais. Em Portugal existe uma lei que é a da confidencialidade dos dados pessoais que hoje em dia é sucessivamente atropelada à custa dos benefícios sociais. As pessoas mais carenciadas não são números, devem ser mais protegidas e acarinhadas.

SOLIDARIEDADE – Há novas problemáticas sociais e muita gente defende que devem inventar-se novas soluções. Parece-me que não é o seu caso...
ISABEL JONET
– Não é preciso inventar nada. Isso são fugas para a frente. Nós temos uma base fantástica constituída pelas 4 mil e 500 instituições de proximidade. Só temos que as pôr a funcionar. E não é através da transferência mensal de verbas que são engolidas pelas despesas de funcionamento. O grande desafio é conseguir que as instituições, mutualidades, misericórdias, conferências que há pelo país fora funcionem de forma correcta em termos de gestão e organização. Dessa maneira as pessoas que lideram essas organizações vão libertar recursos e tempo para dedicar às pessoas que apoiam. As instituições devem apoiar poucas famílias mas de uma maneira integral. Podem ter um papel fundamental em traçar um projecto de vida, ajudando cada família a quebrar ciclos de pobreza, fazer um trabalho de grande proximidade promovendo uma verdadeira mudança de vida. Ao dar verbas cegas o Estado está a perpetuar a pobreza e muitas vezes a criar dependências.


 

Data de introdução: 2006-08-01



















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