NOTA EDITORIAL

Portugal Solidário

Os incêndios previsíveis no Verão, época balnear, de férias e lazer não foram este ano excepção, mas o flagelo da sua chegada foi antecipado.
Ainda as andorinhas não anunciavam a primavera já aqueles proliferavam pelo país e de um modo particular no seu interior.
Aproveitando um campo fértil face à terrível seca que o país enfrenta, tiveram como de costume o seu apogeu em Julho e Agosto, meses de altas temperaturas. As labaredas foram uma constante por todo o país e os meios insuficientes para lhes fazerem frente.

Foi no rescaldo de dois desses grandes incêndios que deflagraram na Beira Interior, região por nós habitada, que rumámos para os arredores da capital para um período de férias.
Para trás deixámos a Estrela e a Gardunha mais negras e mais pobres.
Um único filme vimos na quinzena. Repetido diariamente pelos media em abertura de telejornais e filmado corajosa e arriscadamente em frentes de combate, o espectáculo dantesco que nos era oferecido levava-nos à triste realidade: o país está a arder e no meio das labaredas assassinas aqui e além vão ficando vidas carbonizadas de soldados da paz ou de gente simples e humilde, que em desespero e para além das suas forças e meios, tentam salvar seus lares, animais e parcos haveres.
Muitos se viram sozinhos e impotentes para fazerem frente às chamas que velozmente se aproximavam das suas casas. Gritos de dor, de angústia e até de raiva eram uma constante, face à escassez de meios, de água, de bombeiros ou avião que viesse em seu auxílio.
Interrompi as férias para tratar de assuntos relacionados com utentes da instituição que dirijo, tendo percorrido algumas centenas de quilómetros por zonas fortemente castigadas pelo flagelo dos incêndios.
O cenário é desolador. São centenas de hectares de mata e floresta queimadas, que faziam parte do património e riqueza nacional e único sustento de muitas famílias. Várias destas encontram-se sem nada porque o fogo tudo devorou: casa, animais, horta e demais haveres.
Muitas serão as causas que estarão na origem de tantos incêndios e que ano após ano são drama nacional. Mãos incendiárias e criminosas, negligência, descuido, falta de limpeza das matas, escassos meios e fracos recursos, condições climatéricas adversas, interesses económicos, falta de prevenção atempada e descoordenação, são muitas das causas apontadas para tão elevado número de incêndios no país. Não somos peritos na matéria pelo que não temos uma opinião formada quanto às causas mais significativas.
Não era minha intenção abordar o tema dos incêndios como nota editorial do Solidariedade no período pós-
-férias de muitos voluntários, dirigentes, trabalhadores e colaboradores das múltiplas instituições particulares de solidariedade social espalhadas pelo país e que tal como nós viveram e sentiram o drama que assolou o país inteiro.
É já na instituição que dirijo, na minha mesa de trabalho e entre a correspondência recebida e acumulada que passo os olhos pela imprensa regional.
Os inúmeros e grandes incêndios que devastaram a região na última quinzena são temas dominantes para grandes reportagens onde se relatam dramas de famílias que tudo perderam e ficaram na miséria. E como sempre são os mais indefesos, mais pobres e mais idosos. Para estes a esperança é da cor da cinza.
É esta mesma imprensa que nos dá conta de vários autarcas da região que, conscientes e conhecedores da realidade local, se apressam a prestar solidariedade às famílias vítimas da tragédia e a exigir medidas imediatas de intervenção por parte do governo no sentido de minorar as perdas já existentes.
A grave crise do país, seu défice, o desemprego, o constante aumento do barril do petróleo e consequente aumento do custo de vida, a juntar ao flagelo dos incêndios deste verão, com ou sem decreto a calamidade pública é uma realidade em algumas regiões mais pobres e desprotegidas.
É urgente uma intervenção rápida por parte do governo, autarquias, instituições e cada um de nós.
O Verão ainda não terminou, as chamas ainda não se extinguiram e o rescaldo ainda não está para breve. Consola-nos no entanto a onda de solidariedade já em marcha, que à semelhança de situações e catástrofes idênticas não perdeu tempo e tem já no terreno a corrente solidária.
Um dos primeiros actos de solidariedade que nos sensibilizou foi o daqueles bombeiros profissionais da Alemanha, Suiça e França, que tocados pelas sinistras imagens que lhes chegavam de Portugal, suspenderam as suas férias e se juntaram aos seus camaradas portugueses no combate aos incêndios.
As campanhas de várias instituições são um convite a que cada um de nós individual ou colectivamente se sinta mais uma vez motivado a fazer parte desta corrente solidária.
As instituições particulares de solidariedade social, baluarte do Portugal solidário, através dos seus dirigentes, técnicos e demais trabalhadores disponibilizem os seus meios e recursos, associando-se às diversas campanhas e projectos e que em parceria encontrem as formas mais eficazes e rápidas para irem ao encontro daqueles que mais precisam, minorando assim o seu sofrimento físico, moral, psicológico ou material.


* Membro da Mesa da Assembleia Geral da CNIS
 

 

Data de introdução: 2005-10-08



















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