OPINIÃO

Às urnas, cidadãos - Ou não?

1 - Votei pela primeira vez nas eleições para a Assembleia Constituinte, em 25 de Abril de 1975.
Foi uma alegria, foi uma euforia, foi uma torrente.
Uma alegria pessoal, é certo.
Mas igualmente uma alegria de todo um povo, ao qual um ano antes haviam sido restituídas as liberdades civis, que então se encontravam de novo ameaçadas.
No dia do voto, lá fomos todos, de cravo vermelho ao peito, dizer o que cada um queria, e o que queríamos todos, para o País.

Foram essas umas eleições de alto significado político, que projectaram e conformaram o nosso futuro colectivo, ao confirmarem a natureza democrática e pluralista do regime nascido da Revolução de Abril, dotando-nos de uma Constituição que garantia essa natureza, que nos assegurava a liberdade.
A vitória pertenceu aos partidos que se reconheciam nos valores das democracias de modelo ocidental, tendo o conjunto de deputados eleitos do PS, do PSD e do CDS obtido uma sólida maioria na Assembleia – o que permitiu a aprovação de uma Constituição democrática e liberal, que ainda hoje regula o funcionamento das instituições políticas do nosso País.

Os resultados eleitorais tiveram ainda maior relevo, na medida em que o clima social então reinante, sob a tutela revolucionária da tropa e a liderança vanguardista do PC e da Extrema-Esquerda, parecia prenunciar a débacle eleitoral dos partidos defensores da democracia “burguesa”, como então se dizia.
Para além de tudo, a afluência às assembleias de voto foi avassaladora – dando assim o povo o sinal de querer escolher quem o representasse e de querer manter para o futuro a liberdade de escolha – e de expulsão – dos dirigentes políticos.

Uma parte significativa do Movimento das Forças Armadas, cuja face mais visível era a V Divisão – responsável pela Propaganda, pela Contra-Informação e pela chamada Dinamização Cultural -, que pretendia para Portugal um modelo terceiro-mundista, sob a liderança de pretensas vanguardas revolucionárias e com desdém pelo sufrágio livre, fez então campanha a favor do voto em branco – a pretexto de que os eleitores não estariam ainda bem esclarecidos sobre as méritos dos partidos concorrentes –, para assim desvalorizar os resultados da escolha livre do povo.
Sem qualquer sucesso.

Foi também o resultado dessas eleições que deu às forças sociais e políticas que se opunham à instauração de uma nova ditadura, agora de sinal contrário à de Salazar e Caetano, a legitimidade e a energia para resistir ao bloco vanguardista do poder, num confronto que terminou em 25 de Novembro seguinte, com a vitória da concepção democrática do Regime.
Não sei se por essa ligação, que faço de forma subconsciente, entre as pulsões anti-democráticas dessa parte da tropa e o apelo ao voto em branco, o certo é que, nos 36 anos que levo de vida em democracia, e tanto quanto a memória me assegura, nunca votei em branco.
E nunca deixei de ir votar, umas vezes com alegria, outras com desilusão, em todas as eleições.
E de apelar, nos meios onde a minha palavra possa ter alguma influência, a que todos vão votar; a que todos vão escolher os melhores para governar.

2 - Mas desta vez não sei que faça ou que diga.
E será sem alegria que vou depositar o voto na urna.
O problema é que não estou sozinho neste desencanto.
Eu tinha 22 anos quando votei para a Constituinte.
Hoje, grande parte dos jovens dessa idade não vai, nem quer ir votar.
E não é de estranhar o desinteresse.
Na verdade, ao fim de 37 anos de democracia, o País que apresentamos para a juventude viver o seu futuro não se recomenda.
Não há empregos, nem vai haver tão cedo.

Voltamos à década de 60 do século passado, em que a emigração era a saída para uma vida melhor.
Mas agora são também os mais qualificados que fogem para longe.
(Como os responsáveis políticos não se cansam de repetir, trata-se da geração de portugueses mais qualificada de sempre.)
Portugal está à beira da falência, da bancarrota, estando para ver se, daqui a um ano, nos vai acontecer como à Grécia – e cessar pagamentos.
Estamos em recessão – e continuaremos sem crescer nos próximos anos.
Somos os campeões da Europa nesses indicadores da miséria.
Ao fim destes 37 anos, e neste triste estado, é impossível não olhar para trás, para ver quem nos Governou durante todo este tempo.

Quem nos trouxe até este ponto, de pobreza e de humilhação, sem futuro e sem perspectivas.
Foram, à vez, o PS e o PSD – com o CDS, algumas vezes.
Ora, quem é que se nos apresenta para nos governar de novo?
Quem nos vai governar de novo?
Os mesmos – desta vez com o CDS, que parece ter já lugar cativo no próximo Governo, seja com o PS, seja com o PSD.

3 – Apetece, na verdade, fugir deste bloqueio, que nos obriga a entregar a remissão do País aos mesmos que o levaram à falência.
Penso que é, em grande medida, esta noção de bloqueio, este nó cego, que tem levado ao aparecimento de novas formas de intervenção política, alternativas às tradicionais eleições, por parte da juventude – que sempre foi o tempo da imaginação criadora, das rupturas, da inovação.
A grande manifestação da “geração à rasca”, em 12 de Março último, é já uma evidência clara de que, por baixo da aparente placidez, cresce o terramoto.
Como em Paris, em Maio de 1968, “sous les pavés”, estará ainda e sempre “la plage”.
Basta arrancar os paralelos.

Mas o que estas manifestações inorgânicas de revolta e de protesto nos mostram é o profundo desencanto com as formas canónicas de canalizar as energias da participação no espaço público.
E a crise de representação que é hoje já evidente por parte dos partidos políticos existentes, cada dia mais distanciados das pessoas, dos cidadãos e das suas preocupações.
E por isso repudiados pelos jovens – salvo os jotinhas -, como seus mandatários.
Os partidos que nos (des)governam justificam-se pelo exercício do poder como um fim em si, indiferentes ao bem comum.

Actuam unicamente para manterem nas suas mãos as rédeas do mando e distribuirem as rendas. Cada vez mais escassas, é certo, mas todas saídas dos mesmos bolsos – dos nossos.
A gente bem procura uma réstea, uma sombra de interesse público nas sucessivas governações.
Mas dificilmente a encontra.

4 - De maneira que, no dia 5 de Junho, lá irei até à escola da minha freguesia, votar mais uma vez.
Mas não vou escolher os melhores, como devia ser a regra.
Não há melhores.
Ao meter o papel na urna, sei que estou no fim de um tempo e que enterro muitas ilusões.
E não sei o tempo que aí vem …

Henrique Rodrigues – Presidente da Direcção do Centro Social de Ermesinde

 

Data de introdução: 2011-06-01



















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