ASSOCIAÇÃO DIANOVA PORTUGAL

Uma esperança a cada novo amanhecer

Ao chegar a Monte Redondo, em Torres Vedras, a casa senhorial domina do alto da colina a paisagem envolvida por um sol de Inverno que derrama uma luz de oiro pela pequena aldeia. A 40 quilómetros da capital do país, a pacatez do lugar faz lembrar as vastas planícies alentejanas, onde se diz que o tempo pára para descansar.

Na Quinta das Lapas encontramos a Cristina a um canto do pátio, esfregando as mãos, roxas de frio. Esboça um sorriso triste em resposta ao nosso cumprimento. Cristina tem 33 anos. Desde os 21 consome drogas duras, especialmente heroína. Um namoro com um rapaz que já consumia fê-la experimentar e nunca mais parou durante os 13 anos seguintes. Já fez vários tratamentos, mas as recaídas perseguem-na. A última aconteceu após um tratamento de três meses, deixando-a à beira de um esgotamento. Mãe de dois filhos pequenos, frequenta há seis meses a Comunidade Terapêutica da Quinta da Lapa, uma unidade residencial, profissional e especializada em tratamentos de longa duração da toxicodependência, pertencente à Associação Dianova Portugal, uma instituição particular de solidariedade social especializada na prevenção, tratamento e reinserção de toxicodependentes.

Criada em 1984, a Dianova já acolheu nos seus programas mais de cinco mil pessoas e respectivas famílias. A IPSS pertence à rede Dianova Internacional, uma ONG que tem por missão contribuir para o desenvolvimento social, através da educação e da intervenção nas toxicodependências. Está presente em 13 países da Europa, América Latina e América do Norte. Esta rede permite o intercâmbio de pessoas entre diferentes países, uma alternativa ao local do problema que muitas vezes ajuda à cura.

Stefan Kask é um exemplo desses programas de parceria. Veio da Suécia há nove meses para tentar libertar-se das drogas. Consome desde os 12 anos. Experimentou vários programas de desintoxicação no seu país de origem, mas nenhum com resultados duradouros. Encontrámo-lo na cozinha a trincar um naco de pão. Com simpatia, disse-nos que em Janeiro regressa a Estocolmo, onde vai viver ainda algum tempo numa casa de reinserção da rede Dianova. Com 28 anos, devido às drogas, perdeu por completo o contacto com a família e agora só espera encontrar um trabalho para retomar a sua vida.

Rui MartinsA Dianova aposta numa resposta ao problema da toxicodependência através do tratamento não só do corpo, mas também da alma, ou seja, da parte psicológica e das motivações que levam a essa dependência. A abordagem é orientada numa perspectiva cognitivo-comportamental. A Comunidade Terapêutica da Quinta das Lapas tem capacidade para 40 utentes, sendo que mais de 85 por cento são homens. Para entrar na Comunidade há alguns requisitos, como a desintoxicação, que é prévia ao processo de integração. Além disso, há um processo de pré-admissão do qual deve constar uma série de exames clínicos. É realizada uma entrevista biopsicossocial, onde se faz uma avaliação do perfil e das necessidades do utente. O tratamento é residencial e dura cerca de um ano. O processo divide-se em três fases distintas: a adaptação, com duração de três meses; a consolidação, nove meses; e, por último, a reinserção, com duração de três meses. A adaptação consiste essencialmente na recuperação física do utente e na integração com a restante Comunidade, conhecendo as regras e os horários da casa, bem como as actividades que têm que desempenhar.
A motivação é sempre baixa para esta fase, mas os ganhos acontecem diariamente. “São coisas que são palpáveis, como readquirir o hábito de tomar banho todos os dias, desempenhar uma determinada tarefa e aprender a lidar com os outros. Depois há outras coisas que não são tão palpáveis: como o aumento da auto-estima, a confiança e a realização”, exemplifica Ana Delgado, psicóloga na instituição. Na segunda fase, consolidação, o utente passa a sair, primeiro em grande grupo, depois em grupos mais pequenos até que tem autorização para sair sozinho. Neste período passam a ser permitidas as visitas com a família. A primeira visita é feita na própria Comunidade para que a família conheça o espaço e se confronte com o ambiente que rodeia o utente em tratamento. Posteriormente, as visitas podem ser feitas no exterior, sendo inicialmente realizadas com um acompanhante. Os grupos temáticos fazem também parte deste período, desde grupos que trabalham as emoções àqueles que abordam alguns aspectos sociais como, por exemplo, a gestão de dinheiro. Para ocupar os utentes existem várias actividades: ateliers de expressão plástica, carpintaria, o ponto de Internet no qual se dá formação sobre as novas tecnologias, entre outras tarefas quotidianas como a cozinha e a lavandaria.

Aos utentes só é permitido o consumo de tabaco, mas atendendo às solicitações nacionais, a Comunidade aceita também pessoas em programas de substituição, sempre com uma orientação para a abstinência, no máximo de três meses. “Eles entram com aquilo a que chamamos dose baixa para podermos aplicar a redução e consequente abstinência, no máximo ao fim de três meses”, explica Ana Delgado. O programa não é desmedicalizado, uma vez que existem utentes com patologias que obrigam necessariamente ao acompanhamento com fármacos. “Há pessoas que têm patologias associadas, como o VIH ou outras doenças do foro psiquiátrico que se encontram medicadas, mas apenas para o tratamento dessas patologias e não para o tratamento da toxicodependência”, afirma a psicóloga.
A equipa é multidisciplinar e integra uma directora da área terapêutica, uma directora técnica, um psiquiatra, uma médica de clínica geral, uma psicóloga clínica, uma assistente social, uma técnica de rein¬serção social, um psicopedagogo, monitores, animadores socioculturais, admi¬nistrativos e motorista, para além do apoio jurídico e de recursos humanos.

Centro de Acolhimento Temporário Casa AzulSegundo dados de 2006, a Associação Dianova Portugal pauta-se pelo sucesso: todos os indivíduos continuavam em tratamento um mês depois do seu ingresso; 75 por cento aos três meses; 63 por cento aos seis meses; 37 por cento permaneciam passado um ano desde que o tratamento foi iniciado. Como em qualquer outro tratamento verificam-se “recaídas a médio ou longo prazo, por influência de factores externo negativos como, por exemplo, não conseguir colocação laboral, família desestruturada ou contingências de vida futura”, diz-nos Rui Martins, director de comunicação. Em 2006, a Comunidade obteve a Certificação em Gestão da Qualidade ISO 9001:2000, sendo o único centro de tratamento de toxicodependências em Portugal com esta garantia de eficiência.

Rui Martins adianta alguns projectos em curso como “a modernização das instalações, o reforço das equipas, o aumento do número de camas convencionadas afectas a populações específicas e a criação de sistema de follow-up para monitorização de utentes reabilitados ao longo dos anos vindouros, o que vai permitir efectuar estudos longitudinais e procedermos a uma avaliação dos resultados dos programas”.

A instituição leva a cabo várias campanhas de sensibilização. Em 2006, por exemplo, mais de 20 por cento da população portuguesa entre os 15 e os 64 anos foi alertada para a problemática da droga através da campanha publicitária “Caras – Momentos de confusão”. O impacto social da intervenção da Dianova vai mais além e os números falam por si. Em 2006, 98 pessoas beneficiaram dos programas de tratamento residenciais e mais de 350 foram ajudadas à reinserção profissional e formativa. A empresa de inserção auxilia esse objectivo e dedica-se à produção e comercialização de plantas de exterior. A Dianova possui também um apartamento de reinserção em Lisboa com capacidade para cinco utentes que os ajuda a dar os primeiros passos na vida fora da Comunidade da Quinta das Lapas.

Há quem lá passe apenas uma vez e existem aqueles que acabam por voltar, mas o sonho é comum aos rostos que povoam o espaço: libertar-se do vício e retomar as rédeas da vida que lhes pertence. Cristina, por exemplo, diz-nos, orgulhosa, que foi pela primeira vez a casa há poucos dias em seis meses de tratamento, altura em que viu os filhos, um deles com apenas 18 meses. Determinada, explica que está a fazer formação para ficar com equivalência ao 12º ano de escolaridade e na vida só tem um desejo: “voltar a ser uma verdadeira mãe para os meus filhos”.

 

Data de introdução: 2008-01-14



















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