CENTRO INFANTIL DE NOSSA SENHORA DO CARMO, MOURA

Um futuro melhor tem sido adiado pelos entraves da burocracia

São 91 anos a olhar pelas crianças de Moura, primeiro pelas desvalidas da vida e depois pelas de toda a comunidade mourense. Foi no ido ano de 1910 que “o Cónego Aurélio, juntamente com as senhoras da caridade de Moura, decidiu abrir um centro para acolher meninas e meninos”, conta Cristina Navas, pessoa há muito ligada à instituição, prosseguindo: “O dos meninos fracassou e ficou só o centro para meninas. Em 1934 foi cedido aqui neste espaço um edifício, bastante degradado, onde, então, começou a instituição como Casa de Trabalho de Nossa Senhora do Carmo”.
E se o arranque se deu por uma resposta a meninas pobres sem retaguarda familiar, o primeiro impulso da instituição, com abertura da creche, acabaria por ditar o futuro da instituição.
“Entretanto, construiu-se um anexo para ser a Creche do Menino Jesus, que recebia os filhos das trabalhadoras do campo, que traziam 50 cêntimos e uma fatia de pão! Estavam aqui umas freiras de Beja, da Congregação das Oblatas do Divino Coração, que, juntamente com as meninas, se encarregavam de manter isto e a creche”, explica Cristina Navas, uma espécie de memória viva do Centro Infantil da Nossa Senhora do Carmo.
Com o 25 de Abril, a vertente de acolhimento encerrou. “Disseram-nos que a casa já não era necessária, porque já não havia meninas a precisar. E foi de um dia para o outro!, recorda, lembrando ainda que, então, “alargou-se a creche e fez-se uma creche e jardim de infância”.
A necessidade também era maior, pois começou a haver “muitas mães de Moura a trabalhar”.
Hoje, o Centro Infantil de Moura acolhe 73 bebés em Creche e 94 no Pré-escolar. Faz intervenção precoce junto de 106 crianças, serve 22 refeições dia no âmbito da Cantina Social e distribui alimentos a 244 pessoas, através da Medida de Combate à Privação Material. Tudo com uma equipa de 37 funcionários, cinco dos quais no âmbito da parceria com o IEFP.
Depois de Casa do Trabalho e Creche do Menino Jesus, a instituição, em 1982, passou a designar-se Centro Infantil da Nossa Senhora do Carmo, tendo as freiras saído em 1996. A instituição tem um cariz católico, mas não é de direção canónica.
Muitos dos obstáculos que os responsáveis pelo Centro Infantil enfrentam prendem-se com o edificado, seja pelas instalações, seja pela burocracia que um edifício antigo exige.
O equipamento, cujo espaço exterior é ideal para crianças pequenas brincarem e se desenvolverem, foi inicialmente o Convento de Santa Clara, tendo depois passado para o Exército e sido quartel até que, passados anos e por cedência em regime de comodato pela Câmara Municipal de Moura, passou para a instituição.
“O edifício estava abandonado e fizeram-se apenas umas pequenas obras”, lembra Cristina Navas, acrescentando acerca da intervenção feita na infraestrutura: “Quem projetou o edifício tal como está não o fez corretamente, porque a creche está no primeiro andar e o infantário no rés-do-chão!”.
Mas a principal batalha do Centro Infantil tem sido com a burocracia.
“Houve dificuldades em definir quem era o proprietário do edifício, tendo a autarquia assumido, finalmente, a sua propriedade, tendo, então, aplicado o regime de comodato”, sublinha Cristina Navas.
“Isso agora está ultrapassado, porque já temos a cedência por comodato pela Câmara Municipal e já temos um projeto para requalificação”, revela Maria Oliveira, presidente do centro Infantil, explicando as dificuldades da instituição: “Era impossível candidatarmos ao que quer que fosse porque não tínhamos a propriedade das instalações. A lei mudou e temos que adequar as instalações à lei. Depois, temos perdido imensos projetos por causa destas burocracias. E também não tem havido grande vontade política em nos ajudar”.
Para a presidente da instituição, que também foi utente da instituição, “precisamos de regularizar tudo para podermos olhar o futuro de outra forma”.
Tudo começou com 18 crianças, tendo a instituição chegado às 310, com a abertura do ATL, entretanto encerrado, seis salas de 25 de Pré e 100 crianças de creche.
Sobre o impacto da Creche Feliz, Sandra Coelho, diretora-técnica da instituição, é pragmática: “Por um lado, facilitou-nos, mas, por outro, dificultou, principalmente às famílias, por causa dos critérios. Temos mais crianças a frequentar, a maior parte filhos de famílias desfavorecidas, sendo que as crianças de pais que trabalham ficam para último. E isto tem sido um problema”.
A mais-valia é que “deixa de haver comparticipação familiar, que agora é assegurada pelo Estado”, refere Sandra Coelho, sublinhando: “Os rendimentos das famílias são baixos, logo as mensalidades eram baixas. Não saímos nem a ganhar nem a perder, estamos é mais seguros, porque não há falhas”.
No entanto, a presidente da instituição vê um problema nesta medida.
“Com o fim da gratuitidade na passagem para o pré-escolar, pagar tem levado alguns pais a optar pelo público. Agora, a nossa única diferença é o horário, que é mais vantajoso para os pais, porque a instituição funciona 11 horas, das 7h00 às 18h00, e o Público não”, sustenta Maria Oliveira, avançando que não se importa que a medida da gratuitidade fosse estendida ao Pré-escolar: “Se fosse uma medida como é a da Creche Feliz, para nós era uma maravilha. As instituições que não concordam devem ter comparticipações familiares elevadas, aqui as mensalidades são muito baixas”.
Como seria Moura sem o Centro Infantil?
“O Centro Infantil faz parte de Moura e faz parte da história das pessoas de Moura. Não é só uma escola, é história de Moura”, afirma Maria Oliveira. Já para Cristina Navas, “é uma referência e por alguma razão, no passado, era chamada de Santa Casa, porque isto sempre foi a Santa Casa para todos os mourenses”.
“O Centro Infantil não é só um edifício cheio de vida. É um lugar onde se plantam sementes todos os dias. Sementes de autonomia, de curiosidade, de solidariedade e de esperança. E talvez seja isso o mais bonito de tudo: saber que no coração de Moura, há um lugar onde se acredita, verdadeiramente, que a infância é o início de tudo. E que vale a pena cuidar dela com tudo o que temos”, afirmou, por seu turno, Sandra Coelho.

Pedro Vasco Oliveira (texto e fotos)

 

Data de introdução: 2025-10-16



















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