PRESIDENTE DA UDIPSS DE LISBOA:

“IPSS precisam de um choque cívico”

SOLIDARIEDADE - A UDIPSS de Lisboa cobre, naturalmente, uma realidade muito heterogénea…
José Carlos Batalha
- Trata-se da maior UDIPSS do país, tendo à volta de meio milhar de instituições associadas. É um distrito enorme, com 16 concelhos, incluindo a capital do país. Distrito muito heterogéneo no que toca às realidades sociais. Temos grandes cidades de periferia, acolhendo várias bolsas de pobreza, de marginalidade.
São dramas e problemáticas que se entrecruzam, numa amálgama que nos preocupa: problemas da habitação, toxicodependência, prostituição, sem-abrigo, mães solteiras, portadores de HIV… 

SOLIDARIEDADE - Chagas da exclusão bem escancaradas...
José Carlos Batalha -
O fenómeno da exclusão é bem visível nestas grandes urbes. Com uma particularidade, a da pobreza com isolamento Essa é uma realidade palpável, Lisboa está infectada de um terrível vírus, o vírus da solidão. 

SOLIDARIEDADE - A cidade ou o distrito?
José Carlos Batalha
- A cidade. Não há números concretos, mas serão à volta de 40 mil pessoas, 40 mil idosos que não abrem a porta a ninguém, que desconfiam de todos. É um vírus que infecta a cidade. 

SOLIDARIEDADE - Mas a periferia está blindada à propagação desse vírus?
José Carlos Batalha
- Não está, é um vírus que se espalha, que se propaga. No entanto, nalguns concelhos da periferia ainda se notam, ainda são visíveis as relações de vizinhança. Apesar de falarmos de concelhos-dormitório, os laços de vizinhança vão subsistindo. Mas é um facto que tais laços se vão esboroando. 

SOLIDARIEDADE - Dos problemas que referiu há pouco, algum se destaca?
José Carlos Batalha
- Não há uma especificidade das problemáticas sociais, todas nos preocupam. Mas o que se tem notado mais são as relacionadas com o mundo do trabalho e com as minorias.
Notamos, nas minorias, uma grande vulnerabilidade social, carecendo de uma atenção especial da nossa parte. Os migrantes fogem da pobreza dos países de origem para se atolarem no seio de empresários sem escrúpulos, que não lhes pagam, para viverem em contentores, é uma realidade terrível. 

SOLIDARIEDADE - Sente as IPSS à altura dos novos desafios que a realidade social vai impondo?
José Carlos Batalha
- Vejo as IPSS como um sinal que testemunha a esperança na construção de um mundo mais justo e mais solidário. Citando, livremente, com a devida vénia, o Senhor Cardeal Patriarca, é importante construirmos a cidade de rosto humano que fomente a solidariedade.

“IPSS PRECISAM DE UM CHOQUE CÍVICO”

Sendo mais directo, as IPSS precisam de um choque cívico, para poderem responder aos novos desafios, às novas realidades. Há que mudar hábitos, sermos mais inflexíveis no rigor e na exigência. Ao mesmo tempo, devemos conseguir a maleabilidade que potencie respostas prontas e eficazes aos novos problemas, que são mais complexos, de menor previsibilidade também. 

SOLIDARIEDADE - Num distrito rico como Lisboa, as IPSS têm necessidade da União? José Carlos Batalha - Sem dúvida alguma. O universo de instituições do distrito tem IPSS muito bem organizadas, com meios suficientes, como tem outras que lutam com dificuldades de vária índole. A União disponibiliza um conjunto de assessores prontos para responder às solicitações mais diversas. Para que se faça uma ideia, no ano findo contabilizámos mais de 2000 consultas, sendo que, a maioria delas gira em torno da área jurídica, de questões laborais.
A grande maioria das instituições do distrito não tem possibilidade de responder a tais problemas, e é aí que a União intervém. Queremos que os nossos serviços sejam ainda mais utilizados, mais solicitados. Apelamos a que as nossas assessorias sejam exaustivamente utilizadas, é uma mensagem que transmitimos a todas as nossas associadas 

SOLIDARIEDADE - Como classifica o relacionamento da UDIPSS de Lisboa com a Segurança Social?
José Carlos Batalha
- Temos uma relação óptima com o Centro Distrital de Segurança Social. Reunimos periodicamente com o Dr. Carlos Andrade, dando conta, nesses encontros, das nossas aspirações, das nossas reclamações.
Por exemplo, fazermos sentir à Segurança Social o mau-estar resultante do facto de algumas inspecções não terem o carácter pedagógico que as deveria imbuir, logo na génese. Isto sublinhando sempre que as instituições têm que prestar contas. Esta é uma questão pacífica, um ponto de honra, e ponto final, as instituições têm que prestar contas. 

SOLIDARIEDADE - Está a pensar, por exemplo, no que se passou recentemente com a Casa do Gaiato?
José Carlos Batalha
- Estava a falar no geral, não pretendia focalizar um caso concreto. No que reporta à Casa do Gaiato, acho que se tentou desviar as atenções de um caso, de um problema grave vivido por uma instituição tutelada pelo Estado [Casa Pia]. Sinceramente, acho que houve alarido a mais em torno da Casa do Gaiato. 

SOLIDARIEDADE - Defende menos Estado na área da solidariedade social?
José Carlos Batalha
- O Estado não dá colo, não dá afecto. O Estado não está vocacionado para a acção social e isso é facilmente constatável. O Estado fecha a porta à sexta e reabre à segunda-feira. Connosco, com as IPSS não acontece isso. Ao Estado compete ajudar as instituições, será esse o seu principal papel.



 

Data de introdução: 2005-02-22



















editorial

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Não há inqueritos válidos.

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