OPINIÃO

O passado e o presente

1 - Como sucede há cerca de 15 anos, escrevo nas Rias Baixas, na Galiza, onde passo desde então a maior parte das férias de Verão, a minha crónica do mês de Agosto para o “Solidariedade”.
A experiência desta regular e antiga deslocação anual da família para Norte constitui um dos motivos por que sou favorável à moeda única no seio da União Europeia.
A razão é porque a União corresponde melhor, pelo que tenho experimentado, aos meus interesses egoístas – razão que é a mesma, no fundo, que justifica todas as nossas principais opções e comportamentos.
A gente mais nova – a que o actual discurso oficial chama enfaticamente as “gerações futuras”, afeiçoando-lhe o pêlo para com mais eficácia a açular às canelas dos velhos, em nome do mesmo “futuro” e em louvor do castigo do “ajustamento”– não conhece, de o ter vivido, o que foi o passado, ainda bem próximo, da aventura que era atravessar a fronteira com a Espanha.
Do que é, enfim, o significado de “fronteira” entre dois países.
(Não se ensina isso nas “Universidades de Verão!”)
Já não falo das centenas de milhar de portugueses pobres que, durante o antigo regime, a atravessavam a salto, em busca de trabalho e melhor salário, em França, na Suíça ou no Luxemburgo – correndo o risco, como dizia a cantiga de então, de “ser atravessado por uma bala certeira.”
(Também nesse passado, que queríamos mesmo “passado”, a Galiza onde me encontro se irmanava com a nossa pobreza cinzenta desses anos de chumbo, com levas de emigração para a América do Sul ou para os Estados Unidos.
Cenário que hoje se repete, de um e outro lado do rio Minho.
Como cantava o nosso Adriano Correia de Oliveira, com versos de Rosalía de Castro, galega de Padrón, nessa fusão de dois povos irmãos na pobreza e na opressão: “Este parte, aquele parte/ e todos, todos se vão. /Galiza, ficas sem homens/ que possam cortar teu pão./ Tens em troca/ Órfãos e órfãs/ tens campos de solidão/ tens mães que não têm filhos/ filhos que não têm pai/ …”)
Falo da simples visita de uma família da classe média a Vigo ou a Salamanca, para comprar torrão de Alicante ou caramelos da Vda. de Solano: que perturbação, que canseira, que devassa!
De modo que, tendo passado por tais experiências, me dou bem melhor dentro do espaço aberto europeu que a adesão, primeiro, e o Tratado de Schengen, depois, nos proporcionou.
Mas, durante os primeiros anos de estância na Galiza, ainda tinha de ir de Portugal com as pesetas distribuídas pelos vários bolsos e por sacas discretas, perdendo no câmbio e na comodidade.
Hoje nem isso: levanto “euros” nas “cajas automaticas”, sem pagamento de comissões nem de taxas de câmbio.
Nessas alturas, mas não só por essas razões, levanto em espírito um memorial saudoso ao Engº António Guterres e à sua visão de que a adesão à moeda única, combinada com a solidariedade europeia, poderia tornar este País um lugar mais habitável.
(E – confesso-o sem especial orgulho -, agradeço também o facto de os fundos europeus me permitirem chegar do Porto ao meu destino, na Ria de Pontevedra, em apenas duas horas: sempre por auto-estrada.)

2 - Na Galiza, sê Galego!
É o que procuro fazer sempre – e sem grande dificuldade, já que ser galego é, de certo modo, ainda uma forma de ser português.
Este ano, tenho estado a ler a biografia do Rei Garcia, rei da Galiza entre 1065 e 1073.
O reino, nessa ocasião, nasceu da divisão dos territórios que constituíam o império de Fernando Magno, rei de Leão e Castela, pela morte deste, em 1065, entre os seus três filhos varões: o mais velho, Sancho, ficou com Castela; o do meio, Afonso – que foi o avô materno de D. Afonso Henriques -, ficou com Leão; e o mais novo, Garcia, com a Galiza.
O seu reinado foi breve, pois que foi desapossado do reino, sucessivamente, pelos seus dois irmãos, e encarcerado, em 1073, no Castelo de Luna, onde morreu, em 1090, ao cabo de 17 anos de cativeiro.
E não houve mais reis da Galiza.
Foi sepultado no Panteão Real dos reis de Leão, na Igreja de Santo Isidro de Leão, e na sua pedra tumular figura a seguinte inscrição: “H. R. DOMINUS GARCIA REX PORTUGALLIAE ET GALLECIAE, FILIUS REGIS MAGNI FERDINANDI HIC INGENIO CAPTUS A FRATRE SUO IN VINCULIS. OBIIT ERA MCXXVIII XIº KAL. APRIL”. O que, traduzido para português e rectificado o calendário, vem a dar no seguinte: “Aqui repousa o Rei Garcia, rei de Portugal e da Galiza, filho do grande rei Fernando. Capturado pelo seu irmão e preso, morreu em 22 de Março de 1090”.
Achei curiosa essa referência - aliás coeva, tendo em conta tratar-se de uma inscrição constante da própria pedra tumular -, em que alguém se denomina, e é denominado por outrem, rei de Portugal.
Mais de meio século antes de Portugal, mesmo pelas datações mais recentes – Batalha de S. Mamede -, se ter tornado independente.
A biografia contém a transcrição de alguns documentos, nomeadamente confirmações régias, em que Garcia, intitulando-se igualmente rei de Portugal e da Galiza, confirmava, perante testemunhas, a titularidade de domínios fundiários por parte de nobres ou de mosteiros: e foi-me curioso verificar, num livro escrito no estrangeiro, por autores estrangeiros, relativos a tempos anteriores à fundação do meu próprio País e a personalidades de que a nossa História não trata, que o Rei Garcia confirmava a posse de domínios situados em locais que me são tão familiares como Alpendurada, Eja, Baião, Ribadouro, Coimbra, em favor de famílias ou conventos que hão-de constituir, alguns anos depois, o núcleo de um novo País.

3 – Habituado a uma narrativa da História pátria que começa, normalmente, do ponto de vista cronológico, com a independência, deixando-se os tempos anteriores a ela submersos numa amálgama vaga e difusa, foi-me uma surpresa esse reencontro com referências que já me eram familiares.
Soube, por exemplo, que o avô de Egas Moniz de Ribadouro – este que foi, como aprendemos, o aio e tutor de D. Afonso Henriques – foi o chefe de um levantamento contra as políticas do Rei Garcia e terá sido aliado de Afonso VI de Leão no processo que conduziu à destituição do rei de Portugal e da Galiza.
Tornou-se-me visível, nestas leituras ligeiras de Verão, entre um mergulho e um alvarinho, aquilo em que nunca conscientemente pensara: que, antes da independência de Portugal, sob D. Afonso Henriques, já as mesmas personagens que conhecemos depois como integrando a nossa história autónoma por cá andavam, viviam nos mesmos espaços onde os vimos a encontrar mais tarde, senhoriavam os mesmos territórios e domínios, eram portadores dos mesmos interesses e vínculos.
Isto é, mesmo aquilo que, do ponto de vista da história das comunidades e dos homens, consideramos mais disruptivo, como é o nascimento de um País, não constitui verdadeiramente uma criação “ex nihilo”.
Persistem nele amarrações que o prendem ao tempo precedente, num “continuum”, numa “traditio”, sem fim – e sem começo.


4 – Portugal não começou, portanto, nem na Batalha de S. Mamede, nem com o Tratado de Zamora – embora uma declaração de independência tenha um impacto simbólico e uma força legitimadora ímpar.
Mas mesmo esse acto simbolicamente tão marcante não pode ancorar-se no nada, como vimos.
D. Afonso Henriques, quando tornou Portugal um novo país, não exigiu um território vazio e ermado, para o conformar à sua medida.
Fez o País com o que havia.
Não o aceitou a benefício de inventário.
Ora, se não começou nesse momento datado que a História aponta como fundador, ainda menos começou em 2011, com um simples mandato precário pelos quatro anos de uma legislatura.
Mas, às vezes, até parece que há quem pense que um mandato tão curto dá para virar do avesso uma História tão longa.
Que dá para fazer um País inteiramente outro: sem portugueses lá dentro, claro!

P.S. – É certamente a ligeireza das férias: mas alonguei-me na prosa e não ficou espaço para tratar da recente declaração de inconstitucionalidade pelo Tribunal Constitucional Português, que concordou com o Presidente da República com os vícios de mais um diploma do Governo.
Fica para a próxima inconstitucionalidade, que não há-de tardar – e vai em pacote.
Mas retenho o resumo de António Barreto, no Público de domingo passado, que li na Galiza: “As instâncias públicas e de soberania portuguesas têm de respeitar estritamente o que vem na Constituição. Ponto final. Não tem discussão.”

Henrique Rodrigues – Presidente do Centro Social de Ermesinde

 

Data de introdução: 2013-09-07



















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