VALTER HUGO MÃE

A máquina de escrever

Porquê o título “a máquina de fazer espanhóis”, aparentemente tão difícil de entender para um livro?
Eu gosto de encontrar títulos que não expliquem imediatamente o livro, sobretudo que não esgotem o livro. “a máquina de fazer espanhóis” tem esse lado provocador que eu não consigo deixar de ter porque me atrai. Tende a reflectir esta questão de consciência que vamos herdando de geração em geração, dentro do nosso país, e que tem que ver com a necessidade de sair para o estrangeiro para ganhar a vida, para escapar a uma certa miséria. E, por isso, ad initium, somos espanhóis, somos franceses… Portugal é uma máquina de fazer espanhóis, franceses, luxemburgueses, australianos, canadianos. A quantidade de portugueses lá fora é assustadora. A segunda maior cidade portuguesa é Paris, não é o Porto. Tudo leva a crer que somos uma máquina de fazer estrangeiros.

Mas o título remete para a relação histórica com Espanha e com a posição de Portugal face aos vizinhos. O livro é sobre Portugal, o que foi e o que é?
O livro é sobretudo sobre Portugal. Procura identificar alguns estigmas, algumas características, não exactamente para nos menosprezarmos, mas para que seja possível a ultrapassagem desses impasses e adquirir um qualquer esplendor, que não precisa de ser de grande glória, basta que seja simplesmente atemparmo-nos com as melhores nações da actualidade; não significa voltarmos a ser descobridores de coisa nenhuma. Esta comparação ou jogo com a Espanha vem porque a Espanha é a nossa companheira de sempre, inevitavelmente, fatalmente. Talvez seja, enfim, e isto é o ponto que importa deixar à decisão de cada um… a Espanha seria quem nos poderia querer se nos tivéssemos que oferecer a alguém para que nos salvasse. Espanha podia ser a única interessada. Isto contende com todos os nossos orgulhos históricos. Para mim, que sou um português convicto, é importante levantar estas questões para que reiteremos a necessidade desta soberania, para que reiteremos a definição desta soberania, deste povo, e para que nos defendamos de uma vez por todas. Para que nos ergamos de uma vez por todas. Como dizia o Pessoa é preciso que saiamos do nevoeiro.

O livro é também um livro sobre o fim da vida, sobre a vivência num lar, lugar central para as acções, afectos e sentimentos do sr. silva, personagem central, com 84 anos. Como é que alguém com 38 anos pode sentir a velhice daquela maneira?
Eu acredito que a grande magia da escrita ou da arte está de facto na deslocação que é possível fazer ao nível emotivo, para além da nossa pessoa. Uma obra se se esgotar naquilo que nós próprios somos será muito pobre. Eu gosto da literatura porque me permite chegar ao lugar do outro, entender o outro, conhecer o outro. Cada um dos meus livros é um exercício de estudo, é uma pesquisa, mas que tem que ver com a pesquisa interior feita a partir de mim, porque acredito que dentro de cada um de nós existe largamente a medida dos outros.

Mas para escrever este livro foi feita alguma pesquisa? Passou quanto tempo num lar?
Passei quinze minutos. Foi todo o tempo que estive num lar. Nunca tive a experiência de visitar ninguém num lar. A minha família tem a mania de morrer cedo. Os meus avós morreram cedo, o meu pai, que serviu de mote para esta obra, morreu com 59 anos e eu na verdade, antes de começar este livro, quis entrar num lar para conhecer a mecânica do espaço. Eu tinha a percepção, desconfiava que ao nível das emoções eu pudesse perceber o que ali se passa. A verdade é que ao cabo de um quarto de hora, no máximo, eu saí aterrorizado, assustadíssimo… passei muito tempo a chorar emocionado com o que tinha visto e foi o bastante para me convencer que podia imaginar os sentimentos de uma pessoa que tivesse que ingressar num lar.

Foi uma experiência curta mas muito intensa…
Foi muito forte porque os espaços são muito contrastantes. Havia lugares de recreio, como, de repente, estávamos num quarto de repouso, como iminentemente entrávamos num espaço onde alguém estava a morrer, como subíamos ao segundo andar onde as pessoas estavam “descerebradas”, como me dizia a senhora que me apresentou o lar, e espelhavam nos olhos uma angústia tremenda que me inspirou uma das personagens mais assustadoras do livro, o sr. medeiros, como de repente passávamos por uma porta fechada onde ficava a morgue. Realidades muito contrastantes, no mesmo edifício. Passámos da candura, e de uma certa felicidade, ao trágico extremo de ver tudo terminar. E a dor… há muita gente a padecer de uma dor física e psicológica que em tudo é atroz. Visível nas expressões…

O lar no livro é um sítio onde renasce a vida que está perto do fim. Um sítio próximo do céu e do inferno ao mesmo tempo…
É essa mistura, de uma benigna intenção de cuidar ali muito ao pé da tragédia de terminar e de a morte se fazer por vezes de muita dor. Levantam-se muitas cumplicidades porque as pessoas se suportam umas às outras, porque se assemelham umas às outras, entendem-se melhor do que ninguém. Nesse escasso tempo que passei nesse lar, que é aqui em Vila do Conde, eu próprio me vi a braços de fazer uma amizade com um senhor. Não se apercebeu da minha presença e foi à caixa do extintor e bomba de incêndio buscar um cigarro do maço que lá tinha escondido. Quando me viu teve uma reacção curiosa, não diga nada a ninguém, por favor, não me deixam fumar aqui no lar. Veja lá, tenho quase noventa anos e se calhar têm medo que me dê aqui um cancro nos pulmões, e ria-se… Sosseguei-o, não digo nada a ninguém e ficámos assim instantaneamente amigos e cúmplices. Essa necessidade de uma certa subversão e da manutenção de alguns prazeres, é tão plausível que ainda que eu não tivesse visto poderia ter adivinhado.

Quem lê o livro fica com sensação de que o autor passou por alguma experiência num lar e afinal foram apenas 15 minutos…
Mas isso é que é maravilhoso. Havia um autor que era o Erskine Caldwell que dizia “aprendo mais a escavar no meu quintal do que a correr o mundo” e eu acho que muitas vezes esse é o grande segredo para que conheçamos alguma coisa. É a introspecção, o procurarmo-nos primeiro antes de tentarmos encontrar os outros. Porque por mais diferentes que sejamos partimos de um paradigma semelhante. Eu, nos meus livros, funciono assim. Funciono por uma espécie de projecção em que a personagem não sou de facto eu mas representa o meu discernimento humano. É a percepção que eu faço do que é a aventura de existir. Com esta forma com este raciocínio com consciência, com sentimento, com esta vulnerabilidade.

O livro quase materializa a relação das famílias com os seus mais velhos.
Sim. Nisso sou severo. Eu acho que temos uma sociedade que tem medo da velhice e ao ter medo da velhice rejeita as pessoas mais velhas liminarmente. Não sabe o que lhes fazer. No livro a personagem sr. silva diz, a dada altura, “é preciso que saibam que ainda somos perigosos”. É uma incitação à revolta, uma incitação à participação. É importante que na sociedade ainda caibam as pessoas mais velhas. Podemos dizer que temos o Manoel de Oliveira, com 101 anos, a filmar. É impossível conceber a ideia de uma sociedade que impeça o Manoel Oliveira, com 101 anos, de filmar. Então que sentido faz desmobilizar tanta gente que poderia ter ainda uma função valiosa e de quem, tendencialmente, já não esperamos nada? Precisávamos de aprender com alguns orientais que têm da morte e da velhice uma perspectiva de mérito. Como se chegasse a velho não quem quer mas quem pode, ou merece, ou conquista. E ter da velhice e da morte uma imagem muito mais benigna. Como uma coroação de um êxito. Mas tragicamente não somos assim. Somos sofredores, temos a sensação de que vamos ser julgados. Que existe a sensação de irmos parar às chamas do inferno.

As ideias sobre a morte são quase obsessivas em todos os seus livros…
Jorge Listopad diz que quem não morreu está a morrer. Eu sinto o meu tempo a contar. Tenho sempre a sensação de que intensifiquei muito pouco cada momento da minha vida. Que as coisas me escaparam rápidas de mais. E, por isso, propendo para a morte com uma velocidade assustadora.

Mas a relação com a morte é de inevitabilidade, de revolta, de que a morte é o início de qualquer outra coisa?...
É uma relação complexa que comporta alguma angústia. Não é por acaso que o romance acaba com a palavra angústia. Pode ser um sentimento desmobilizador e isso assusta-me. Se nos julgarmos aqui por pouco tempo e se nos convencermos de que a morte nos vai tornar inoperantes em todos os sentidos parece que as coisas não são válidas, não se torna necessário fazer nada. E nesse aspecto a humanidade estaria extinta, viraríamos apenas bichos numa qualquer luta pela sobrevivência. O sentimento de responsabilidade humana de cuidado por nós e pelo outro, esse sentimento estaria terminado porque ficaria nada. Seriamos apenas tempo. Há uma angústia nessa reflexão.

Angústia mas não medo…
Não exactamente medo. Até escrevi num poema que a morte é a grande oportunidade. Se não é a vida que nos oferece o paraíso só a morte o poderá fazer. Como eu não tenho convicções na transcendência estou grandemente tramado, mas não posso deixar que a convicção de que a morte é uma porta fechada me estrague a vida. Por isso o que eu faço é correr, movimentar-me no sentido de a cada momento fazer a intensificação de que falava.

Isso pode catalogar-se como um género qualquer de agnosticismo?
Em termos religiosos acho que sou agnóstico. A minha posição é esta: Deus só existiria se tivesse muita lata. Precisaria de ser perverso para inventar tal atrocidade e deixá-la à deriva depois.

É uma perspectiva saramaguiana…
Eu admiro o Saramago desde há muito tempo. A minha admiração por ele começa na liberdade de assumir uma posição desligada da transcendência mas profundamente humanista. Ele é uma grande ser humano que quer a protecção de todos os seres humanos. Nós acreditamos em Deus porque não somos capazes de acreditar uns nos outros. A minha postura é levar a vida com a dignidade que eu seja capaz e se por azar Deus tiver a lata de existir vai ter de convir que eu fui um dos melhores cristãos. Eu até acredito que sou mais cristão do que a maior parte dos cristãos.

O livro reflecte essa posição. Há uma relação curiosa entre o sr. silva que está no lar “feliz idade” e a imagem de nossa senhora de fátima, a quem ele chama mariazinha. É de uma religiosidade prática que cresce à medida que se aproxima o fim.
Há uma espiritualidade. Qualquer indivíduo mesmo não acreditando na transcendência tem uma dimensão espiritual. Faz parte de um íntimo conhecimento de nós próprios. O livro passa pela tónica dos bons homens, do cuidado social. A minha personagem antónio silva acaba por se afeiçoar àquela imagem que sendo uma entidade estática é ainda uma alusão a uma pessoa. Há pelo menos um cuidado humano por aquela figura que alude à bondade, às boas intenções.

Deus, a morte e o sofrimento estão muito presentes nos quatro romances escritos desde 2004. É intencional?
Tem que ver com minha natureza. Cresci muito balizado pelos valores católicos numa família muito grande que foi vingando e se foi salvando com muitas graças a Deus. Passei por um longo período da minha infância de adoração divina e expectativa divina. Eu perscrutei demasiado a voz de Deus, tentei que me respondesse, tentei que se manifestasse, quis acreditar que se manifestava nas flores que abanavam, nos perfumes que se cheirava, no vento que eu queria que me inspirasse os versos. Fui ficando convencido que o eu querer que ele existisse é completamente diferente do facto de ele existir ou não.

Neste seu percurso há uma pergunta feita milhares de vezes. Porquê a opção por escrever com minúsculas e com uma pontuação minimal?
Agora escrevo com minúsculas porque sou casmurro. Mas tem que ver com uma espécie de democratização da dignidade das palavras. A maiúscula serve para dizer onde começa uma frase o que é uma redundância porque depois de um ponto final a palavra que vem a seguir tem que iniciar uma nova frase e servem para acentuar a dignidade de uma qualquer palavra e isso vê-se nos nomes próprios mas numa obra literária não faz sentido nenhum. A força das palavras está contida na capacidade expressiva, na destreza, no imaginário, no fulgor e por isso o nome de alguém pode ser a palavra mais boçal do livro. Para a literatura não interessam nada essas coisas.

Não houve imitação de José Saramago?
Há muitas coisas que eu terei aprendido com o Saramago como terei aprendido com o Lobo Antunes. O Lobo Antunes escangalha a sintaxe, adultera com liberdade incrível aquilo que esperamos de um texto escrito e chama aos romances poemas. Diz que se fosse um bom escritor seria um poeta o que é uma ironia, com o lugar de autor incrível ele é tem. Eu aprendi muito com muita gente. O autor que me marcou mais em termos formais foi o Al Berto. O poeta que eu li a partir dos meus 14/ 15 anos e que de uma maneira aleatória grafava os poemas quer em minúsculas quer em maiúsculas. É a partir da poesia que a minha liberdade formal nasce. Eu durante dez anos publiquei apenas poesia e li, durante toda a minha vida, muito mais poesia, 80 a 90 por cento de tudo o que li. E na poesia essas questões não se levantam. A falta de vírgulas, pontos, pontos de exclamação, maiúsculas, nada disso se levanta. Tudo é absolutamente apanágio da poesia há muito tempo. Tenho a sensação que os leitores de poesia são os que lêem mais facilmente os meus livros. Estão preparados para a ultrapassagem das regras. Eu faço-o porque venho daí.

Como é que se reage depois de ler o que José Saramago escreveu a propósito de um livro seu? Um elogio fantástico de um prémio Nobel dirigido a si…
As pessoas retiveram muito o tsunami. Aquilo que mais me impressiona do que disse Saramago foi: “por vezes tive a sensação de assistir a um novo parto da língua portuguesa”. Como se eu, gordinho e careca, sozinho, nas Caxinas, pudesse ter inventado outra vez uma forma de falar português. É o que mais me assombra. Como é que se reage? Com assombro. Volta-se para casa e fica-se com os olhos pregados no tecto durante uns tempos, esbugalhado sem perceber como é que me aconteceu. É grande demais. Só não se emudece por causa dessa lata e desse disparate que me faz continuar.

Há muito das Caxinas nos seus livros?
As Caxinas são importantes na minha obra porque são um território de liberdade discursiva muito grande. Nas Caxinas fala-se um português distinto. Há um sotaque caxineiro retinto. Uma conversa entre duas caxineiras verdadeiramente entusiasmadas é provável que quem não vive cá não entenda. Há uma exuberância que resulta numa profusão, uma maravilha vocabular, as pessoas são descomplexadas, não são tímidas.

Um povo habituado ao sofrimento, à dor e à morte.
E por isso um povo feito como os meus livros são feitos. É um povo que acusa a tragédia constante, mas que vai escapando, vai sobrevivendo com a obstinada força de estar vivo e com uma forma de dizer, de falar muito diferente. Os meus livros ambicionam tudo isso. As Caxinas são uma escola fenomenal para a literatura.

Por V. M. Pinto

 

Data de introdução: 2010-03-10



















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