PADRE JOSÉ MAIA, O TERCEIRO PRESIDENTE DA UNIÃO DAS IPSS

Eleito presidente sem querer esteve 14 anos à frente da UIPSS

SOLIDARIEDADE – Lembra-se em que circunstâncias é que se tornou presidente da União das Instituições Particulares de Solidariedade Social?
PADRE JOSÉ MAIA
– Na altura conviviam no mesmo espaço a União Distrital do Porto, ainda Secretariado, no terceiro andar, e, no primeiro andar, a Direcção Nacional das IPSS. Certo dia, nós tínhamos feito uma reunião e quando descíamos eu fui abordado: “Maia, estamos a contar contigo para seres o Tesoureiro da União.” Ao que eu ia respondendo, a brincar: “Para Tesoureiro? Eu nem a tabuada sei… ficava bem entregue!” As abordagens continuaram e daí a algum tempo o convite era outro: “Tu davas era um bom presidente.” Lembro-me de ter dito: “Assim está bem, mas nessa altura eu aceito se o Álvaro Vidal for vice-presidente.” Ele era presidente da Distrital de Lisboa que teve sempre uma má relação com a Direcção Nacional. Quando coloquei essa condição ela não foi aceite e eu pensei que o caso ficava por ali. Mas não. Acolheram a minha sugestão e, a brincar a brincar, fizeram-me o cerco. Era uma lista institucional proposta pela Direcção para ser eleito. Foi em Coimbra em 1988. Quando lá chegámos a lista ainda estava incompleta. Foi fechada na hora. Havia pessoas que transitaram da anterior, como era o caso da Eng. Maria Carolina, a Maria Vitória… e havia pessoas novas como, por exemplo, o Álvaro Vidal, que tinha grande experiência institucional; o Presidente da Assembleia era o Dr. António Lapa; no Conselho Fiscal o padre António Sousa. Tentámos incluir as realidades da altura: as Misericórdias, a Caritas e as associações. A surpresa total foi quando dei conta que havia outra lista encabeçada pelo anterior presidente o Dr. Ernesto Campos. Deu-me vontade de vir embora, mas fomos a votos e a nossa lista venceu. Fui eleito sem saber para quê e passei uns maus momentos ao princípio.

E depois manteve-se durante 14 anos…
Mas o que é curioso é que eu nunca me propus a eleições. Entendi isso como um serviço. Nunca me passou pela cabeça que pudesse passar tanto tempo. Cheguei a ser simultaneamente pároco da Areosa, Provincial da minha congregação e Presidente da União. O que me deu imenso trabalho. Eu só esperava que os mandatos chegassem ao fim para passar o testemunho a outro. Na União eram sempre grupos de instituições que, ao abrigo dos estatutos, apresentavam a lista. Sempre coloquei como condição que a lista entrava à boca das urnas e só se não houvesse mais nenhuma. No primeiro mandato nós fazíamos as reuniões descentralizadas pelos distritos para conhecer melhor a realidade. Foi muito importante. Cheguei a criar a figura do secretário-geral para que acautelasse as bases porque eu percebi logo que a minha actuação era mais de natureza política, sobretudo relações com o poder central. Depois criei a função de presidente-adjunto que foi o Prof. Eugénio. Em boa hora o fiz. Era um verdadeiro presidente que me substituiu muito bem quando estive gravemente doente.

Retirou-se ao cabo desses 14 anos…
Por razões de saúde. Tinha mesmo que sair.
Que realidade encontrou quando foi eleito?
O primeiro ano foi bastante curioso. Pressenti que o apoio do governo em vez de aumentar diminuía. Comecei a perceber a relação com o poder político. Encontrei uma organização que tinha pouco tempo. Na sede havia poucas pessoas que faziam o que podiam. A primeira tarefa foi organizar a União de forma mais profissional. Nas assembleias que se faziam por todos os distritos comecei a conhecer pessoas. Uma parte das pessoas que vieram depois a colaborar comigo conhecia-as nas assembleias, em função das intervenções que faziam. Foi o caso do Dr. Costa Fernandes - para mim, uma referência - que foi convidado para assessor jurídico depois de um intervenção que fez em Coimbra. Foi um baluarte fundamental nos meus mandatos na vertente jurídica. Depois de mandato para mandato ia renovando a equipa. Fez-se uma geração de dirigentes e líderes sociais com uma visão nacional que foram aproveitados noutras direcções depois de ter saído. Faltava uma visão nacional. Cada um via a sua instituição e o seu distrito. Demorou algum tempo para elevar a União a um patamar nacional.

Ainda se revê nas pessoas que estão na equipa actual da CNIS?
Sim. Nas que estão e noutras que, entretanto, saíram. Tive pessoas muito empenhadas, muito competentes e de uma lealdade a toda a prova. Um dos segredos de eu ter aguentado tanto tempo foi o facto de ter colaboradores com quem estabeleci amizade. Eu dizia que éramos uma espécie de primos. Criou-se uma relação de parentesco. Foram equipas de uma participação e de uma colaboração fantástica. E houve momentos muito complicados. Tínhamos uma mística de actuação, nas grandes batalhas que disputámos, que as instituições perceberam. Uma dessas batalhas foi a municipalização, no tempo do Cavaco Silva, em que se queira passar a acção social para as câmaras, eu lembro-me que à uma e meia da manhã recebi um fax do gabinete do ministro Silva Peneda a dizer que estava a questão resolvida. As IPSS estavam mobilizadas para Coimbra no dia seguinte e eu levava uma prova de que tínhamos vencido. Há uma arte que é transformar as dificuldades em oportunidades. Eu identifico-me muito com esse sistema. Muitas vezes as dificuldades desanimam. A mim não. Dão-me pica. Quando há uma dificuldade resulta, por norma, um desafio. Se se verifica que ela é superável então é mais fácil de a ultrapassar. Nós tivemos muito essa estratégia. E ainda por cima era ganhadora.

Como encontrou as IPSS? Reviam-se na Direcção da União? Estavam mobilizadas?
Tem que se fazer história. Eu recordo pouco mas valorizo muito a história. Foi muito importante para a União o acto fundador que aconteceu no Perpétuo Socorro, no Porto.
O padre Marinho Cia, que já faleceu, o padre Virgílio Lopes, da União das Misericórdias e o padre Orlando Mota e Costa, de Cedofeita, foram os grandes obreiros desse acto fundador. Depois, esses dirigentes bateram-se pelo Decreto-Lei 119/83 que foi muito importante. Tudo isto antes de eu entrar. É o marco da fundação da União, onde eu não estou, que ainda hoje é o que fundamenta as IPSS. A quem fez isso eu quero tirar o chapéu porque foi uma obra fundamental. Havia já uma mística e uma vontade que eu herdei mais tarde. Foi isso que me incentivou para dar o meu contributo a essa causa. Quando entrei havia uma grande contestação das distritais à Direcção. Era uma coisa genética com a qual tive também que conviver. O facto de ter o Álvaro Vidal da Distrital de Lisboa ajudou a esbater essa contestação. Da parte das instituições havia uma mística e uma certa orfandade. O Acto da constituição e o Dec-Lei 119/83 foram pedras essenciais que permitiram construir um alicerce sólido que se aguentou até hoje.

Acabou por relacionar-se com muitos governos, muitos ministros e secretários de estado do PS, PSD e CDS. Que momentos é que considera fundamentais desses 14 anos na relação com o poder?
Houve peripécias de todo o tipo. Até uma em que se suspeitava que o PSD queria meter na Misericórdia de Lisboa alguém ligado ao partido. Mas a primeira dificuldade acabou por ser o grande momento. Foi o caso das listas, em que o Estado queria poupar dinheiro e pretendia que as IPSS mandassem os nomes dos utentes com aquilo que eles pagavam. Isso deu uma rebelião e eu peguei nessa bandeira porque me parecia que era um acto de desconfiança. Na altura o ministro, Silva Peneda, queria saber quem era esse tal Maia. No Porto, o Feliciano Ramos, no gabinete da Segurança Social promoveu um encontro com os dois. Dali fomos para casa dele na Maia e estivemos até há uma hora da manhã a conversar. De uma briga foi possível fazer uma concertação entre o Centro Regional de Segurança Social do Porto e o ministro. O Silva Peneda acabou por ser um instrumento importantíssimo na cooperação. Em 1992 houve um acto muito importante para nós que foi o encontro de Alfena, foi o grito do Ipiranga. Em 24 horas o Padre Nuno pôs lá 3 mil pessoas com banda e música e com tudo. Levámos lá o então primeiro-ministro Cavaco Silva. Então aí, conseguimos um despacho normativo que esteve durante muitos anos a servir de suporte jurídico para acordos de cooperação. O ministro Silva Peneda foi, de facto, um aliado importante nestas causas. Outro momento histórico foi a instituição dos protocolos de cooperação. Eram os técnicos que davam directrizes às instituições e a todos. A partir da altura em que nós exigimos ter como interlocutor um secretário de Estado ou ministro, passou a fazer-se o relacionamento por protocolo. Um protocolo é aquilo que define políticas. O protocolo é feito pelo secretário do estado ou ministro e depois os serviços têm que o seguir e não o contrário. Foi um momento histórico. Ao longo desse tempo quiseram também rever o Decreto-Lei 119/83. Nós nunca aceitámos que a tutela do sector social fosse do Ministério da Segurança Social. A tutela só existe em órgãos da mesma natureza. Nós não somos públicos, somos particulares.

O ministro Silva Peneda foi o governante com quem melhor se relacionou. E o pior?
O pior… Ele não gosta que o diga, mas foi o ministro que sucedeu a Silva Peneda no governo de Cavaco Silva: Falcão e Cunha. Ele é uma boa pessoa, mas passámos um mau bocado. Isso é público…a coisa não deu certo. Com ele houve muitas dificuldades… Depois veio um secretário de estado que era o mais difícil para nós: o Luís Filipe Pereira. Muito complicado. Foi com ele que surgiu aquela famigerada ideia das listas de utentes. Acabou, por causa disso, por ser demitido. Depois do governo de Cavaco Silva veio o de António Guterres. Foi a Fátima a um congresso e propusemos-lhe aquilo que veio a ser o Pacto de Cooperação para a Solidariedade Social. Com Peneda tínhamos um protocolo ao nível do Ministério; com Guterres subimos a fasquia. Um instrumento intergovernamental que se consubstanciou em múltiplas iniciativas. A União cresceu e transformou-se na representante das IPSS junto do governo. A direcção era um instrumento para negociar oportunidades junto do executivo para as nossas associadas as oferecerem aos mais pobres. No governo de António Guterres, a dupla Ferro Rodrigues e Rui Cunha, ministro e secretário de estado, foi também uma dupla que deu sequência ao bom relacionamento com a União das IPSS.

Desse período ficou-lhe a fama de ser um líder carismático. Era a voz e a imagem da União. Alguns criticam-no por isso.
Eu admito que lhe dei à minha presidência um cunho presidencialista. Eu, talvez pelo meu modo de ser, criei uma certa empatia com a comunicação social. Era a forma como comunicava e as causas a que dava visibilidade. Do ponto de vista do trabalho e da organização a direcção da UIPSS funcionava colegialmente. Acusavam-me às vezes, e eu aceito essa crítica, de ser uma espécie de locomotiva que ia muito à frente e as carruagens ficam distanciadas. Mas era uma questão de aproveitar as melhores ocasiões. O pior preço que eu tive que pagar foi dar a cara tantas vezes na televisão. Fiquei, no país, com a imagem de um delegado de pedintes. Ainda hoje me reconhecem por isso.

A sua sucessão foi muito complicada…
Vejo com alegria que aqueles que me substituíram continuaram a ter acesso aos governantes e à comunicação social, a bem da UIPSS. Há duas observações que me fazem que eu considero pertinentes. Uma, é a de que eu toco muitos instrumentos. Eu respondo: Não, eu dirijo é várias orquestras. Trabalho com várias equipas e tenho tido a sorte de ter tido boas equipas a trabalhar comigo. Depois costumam dizer que eu sou mediático. É um erro. Não sou eu, mas as causas que eu abraço. E a União tem sempre um conjunto de causas mediáticas. Quem as protagoniza torna-se conhecido.

Porque é que resolveu sair?
Por um lado por causa da minha saúde. Fui operado a um cancro complicado. Por outro, na minha congregação queriam confiar-me algumas tarefas importantes e eu entendi que tinha mesmo que sair. E, além disso, a União precisava de arrumação. A partir de um certo tempo nós repetimo-nos. A nossa argumentação é sempre a mesma, a nossa linguagem é a mesma e uma instituição não lucra em ter pessoas de responsabilidade tanto tempo na liderança. Durante dois anos preparou-se a passagem de União para Confederação e entendia que devia ser outra gente a assumir essa nova realidade.

O Cónego Francisco Crespo, que lhe sucedeu, não terá sido vítima da sua liderança forte e personalizada?
A pessoa que faz transição tem sempre dificuldades. Havia uma comparação de imagem, apenas disso. Presto ao padre Crespo uma homenagem também por isso. Ele só aceitou depois de muita insistência. Foi indicado numa lista institucional e ele aceitou com a missão de serviço, com muita dificuldade. Fez comigo dois mandatos, mas não era fácil assumir a presidência. Ficou com um grupo de pessoas que ele já conhecia. O primeiro mandato, fosse quem fosse, seria sempre difícil. Houve algumas causas, como a ida do Presidente da República ao Congresso, por exemplo, em que ficou a marca deste tempo do padre Crespo.

No último Congresso, o padre Crespo foi substituído pelo Padre Lino Maia. O senhor foi mandatário da lista vencedora…
Nessa transição acabei por ver um cenário que me recordou a forma como eu fui eleito pela primeira vez. Quando me foi dito que havia uma lista institucional eu pedi a acta da direcção em que tal tinha sido deliberado e, em face, disso aceitei ser mandatário da lista encabeçada pelo padre Lino Maia. Depois, vim a saber que o anterior presidente decidiu avançar também com outra lista. Se eu sonhasse que haveria duas listas nunca me teria metido no processo eleitoral.

Como acompanha agora as questões da CNIS?
Tenho quatro instituições filiadas, sou cronista do jornal Solidariedade e sou membro de CES, mas com pouco tempo.

Como o caracteriza a prestação actual da CNIS?
Entendo que a actual direcção tem feito um trabalho muito importante. Primeiro na implantação da CNIS. O padre Lino Maia com um carisma muito próprio, que empenha, mais do que eu, os seus colaboradores, já ganhou a causa da CNIS. Depois na defesa das Instituições. Esta questão da Petição por causa dos ATL é de grande inteligência e sentido estratégico. O texto é muito bom e vai ser assinada por muitos milhares de pessoas. Independentemente do resultado que venha a ter na Assembleia da República esta iniciativa tem um valor estratégico imenso. É um momento muito alto da CNIS. Tiro o meu chapéu à Direcção. É comparável ao que fizemos na altura com Alfena. É mobilizador das instituições, é congregador e é uma iniciativa de causa.

 

Data de introdução: 2008-02-07



















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