De Finisterra a S. Vicente

1 - Como já vem sendo hábito, a crónica de Agosto, para o Solidariedade, escrevo-a na Galiza, há muitos anos o meu poiso nas férias de Verão.

Trago sempre comigo uma grande e diversa parafernália, desde os papéis que durante todo o ano não tive tempo para arrumar – e que sempre regressam a Portugal no exacto ponto em que viajaram para a Galiza - até aos mapas e roteiros históricos e turísticos desta Autonomia e a alguns livros que tinham ficado por ler.

Dois dos livros que trouxe e li durante estas férias foram “Afonso o Conquistador”, uma biografia romanceada do nosso primeiro Rei, da autoria de Maria Helena Ventura, e “Filomeno, para meu pesar”, romance do escritor galego Gonzalo Torrente Ballester.

Do primeiro, retive a noção do grande imprecisão da fronteira norte do Condado Portucalense e, depois da independência, do Reino de Portugal, em tempos em que a zona de Tui, e de toda a Ribeira do Lima, e do território a norte de Chaves, oscilavam entre a obediência a Afonso Henriques ou a seu primo Afonso Raimundes, Afonso VII de Leão; e do romance de Ballester a informação, de que também não tinha consciência, de que até às Revoltas Irmandinas, no século XV, cujo desfecho determinou a integração da Galiza na Espanha dos Reis Católicos, o Reino da Galiza, então desaparecido, sempre estivera ele próprio oscilando entre a sua integração em Portugal ou em Castela.

2 – Já aqui escrevi no ano passado que, na verdade, a gente passa a fronteira e quase não se dá por ela: na língua, na paisagem, nos costumes, no mar …

Não foi sempre assim no passado próximo, em que, não obstante a grande proximidade ideológica das ditaduras salazarista e franquista, passar a fronteira, mesmo para comprar caramelos, tinha um vago perfume de epopeia.

Foi nesta cultura de separação que, pelo menos na minha geração, fomos educados desde os bancos da escola.

Essa cultura teve vantagens: para voltar ao tema da minha última crónica, foi também graças a ela que se forjou a nossa identidade como País independente e autónomo.

Mas, ao passar pelas terras onde D. Teresa passou o exílio e morreu; ao visitar na Catedral de Santiago os túmulos dos Peres de Trava, um deles, Fernão, pai de um irmão de D. Afonso Henriques; ao percorrer Tui, que prestou vassalagem ao nosso primeiro Rei e cujo Bispo teve longamente jurisdição sobre terras do Alto Minho; ao andar pelas terras dos Castro, de onde veio Inês para morrer em Coimbra; ao ver adentrar-se, no Cabo Finisterra, em direcção à Irlanda e à Inglaterra, as sombras Celtas que o nevoeiro também fez aportar ao nosso mar; e ao beber um copo do mesmo alvarinho que produzimos em Monção e em Melgaço, percebemos que estamos num território que é também simbolicamente nosso.

3 – E somos, na verdade, muito iguais.

Durante os últimos quinze dias li diariamente o Jornal de Noticias e La Voz de Galicia.

Foi assassinado um “segurança” em Vigo, como no Porto; eram diárias as detenções de pedófilos, como cá; os partidos da coligação que governa a Galiza – PSOE e BNG -, bem como o anterior Governo Autónomo, do Partido Popular, estão no centro de uma investigação parlamentar e judicial por causa de um projecto megalómano, a cidade da cultura, no Monte Gaiás, em Santiago de Compostela, e que, como todos os projectos desse tipo, por exemplo, Casa da Musica, Centro Cultural de Belém, Expo 98, entrou em derrapagem financeira… - enfim, lemos a imprensa local e parece que estamos em Portugal.

Para parecer ainda mais que estamos em casa, roubaram a um familiar meu, numa feira, uma carteira com todos os documentos.

Feita a competente queixa à Guardia Civil, foi o respectivo impresso apresentado para assinatura – em (7) sete duplicados.

Vindo a Portugal para tratar do cancelamento dos cartões e do pedido de novos, sou informado pelo Banco de que, por indicação do Banco de Portugal, é preciso apresentar cópia da Declaração de IRS e comprovativo de residência.

Também nos jornais galegos são diárias as cartas de leitores insurgindo-se contra a devassa da vida privada que também nos bancos espanhóis é regra de vida, exigindo para tudo certidões, comprovativos, provas … Só falta mesmo exigirem o ADN, como ironizava um leitor em carta que colou com saliva, para facilitar a colheita das células necessárias.

4 – Ainda não chegaram todavia na Galiza à ideia peregrina de instalar um “chip” na matrícula dos automóveis, para controlo pelas entidades administrativas, como vejo no jornal que pretendem fazer em Portugal.

A que se seguirá, seguramente, o passo de instalar um “chip” semelhante na orelha dos cidadãos – como os piercings.

Já se faz o mesmo em alguns animais, para saber onde andam.

Já se faz o mesmo a certos presos, para que não saiam do trilho.

Creio que na Galiza, se as autoridades quiserem tomar medidas idênticas, o povo não deixará.

É que, pelo menos no exercício da cidadania e na indignação civil, somos diferentes.

Lá já derrubou governos, como sucedeu com o de Fraga Iribarne, que afundou junto com o petroleiro Prestige.

E poderá suceder com o ataque aos partidos envolvidos na Fundação Cidade da Cultura, que já referi, ataque que é encabeçado por Plataformas de Cidadãos.

De cara descoberta – e contra o poder instalado.

À vista disto, a invasão de um campo de milho é uma caricatura triste e pífia.

*Presidente da Associação Ermesinde Cidade Aberta

 

Data de introdução: 2007-09-08



















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