CONCHA TELLO

Leiga Missionária no esquecido Niassa

Aos 34 anos, Concha Tello decidiu mudar radicalmente as agulhas do seu roteiro de vida. Licenciada em História de Arte, trabalhando numa prestigiada agência de publicidade, começou a sentir-se "um bocado vazia", perguntando-se que sentido atribuir à sua passagem por este mundo.
O facto de ser “católica convicta” ajudou-a a dar o passo decisivo.

Contactou os Leigos para o Desenvolvimento, cumpriu com sucesso as duras provas exigidas por esta organização, período de formação que se estende por vários meses, e ei-la em Moçambique. Não na capital ou cercanias, por onde pululam muitas das ONG’s, mas no Moçambique profundo ou quase esquecido.
Em 1999, Concha Tello foi para Lichinga (ex-Vila Cabral), na província do Niassa, a 2.000 kms da capital. 

"Estive ao serviço da diocese de Lichinga, localidade onde os Leigos já dispunham de uma comunidade há vários anos. Integrei-me nos trabalhos de iniciativa da diocese, colaborando também com estruturas locais. Isto para além do trabalho pastoral, pois fazemos parte da equipa missionária. Importa referir que os Leigos também desenvolvem projectos próprios. No caso concreto de Lichinga, destaco a Biblioteca África Amiga e o Centro de Informática. Tanto num caso como no outro, e isto é um princípio dos Leigos, são pessoas da localidade que ficam à frente das iniciativas, cabendo à ONGD [Organização Não-Governamental para o Desenvolvimento] a supervisão do projecto". 

No primeiro ano da sua estadia por terras de Niassa, Concha Tello participou num projecto de saúde comunitária:
"Abrangia 60 postos ao longo da província, minorando deficiências de cobertura sanitária por parte do Estado. Tratava-se de um projecto da diocese, cabendo-me a responsabilidade pelo apoio administrativo e logístico, isto para além da articulação com as estruturas locais. Como estarão recordados, 2000 foi o ano do Jubileu. As quatro dioceses do norte de Moçambique - Nampula, Tete, Niassa e Cabo Delgado -, decidiram assinalar esta importante efeméride promovendo uma Maratona contra a Lepra. O objectivo era ambicioso: tentar erradicar a lepra da região durante o ano 2000. Foi uma jornada inesquecível, com resultados palpáveis, apesar de não se ter conseguido erradicar a lepra na sua totalidade, naquele ano". 

Em 2001, esta missionária passou a dar aulas de português ao 11.º ano de uma escola local:
"Foi uma experiência interessante e muito enriquecedora. Desde logo o desafio de me fazer entender. A nossa língua tem sons muito fechados, é preciso abrir um bocadinho para sermos entendidos. No capítulo relacional, é necessária uma maior proximidade. Também nos esforçamos por puxar pelos alunos, habituando-os à auto-crítica. O ensino ministrado pelos Leigos é reconhecido e prestigiado em Moçambique. Toda a gente sabe que somos exigentes, tão exigentes como justos.
A vertente da cidadania é também muito importante. Nunca descuramos a formação humana dos nossos alunos". 

Aulas de português num país rodeado por países anglófonos não se afigura tarefa fácil:
"É verdade, eles têm uma grande apetência pelo idioma ingês. O português é a língua oficial, no entanto não é um factor de comunicação transfronteiriço. Não nos podemos esquecer que o Niassa é uma província esquecida de Moçambique. Como se sabe, integrava o Niassaland, que o Mapa Cor-de-Rosa dividiu, cortando o lago ao meio. De um dos lados chama-se Lago Malawi, e do outro Lago Niassa. Para irmos de Lichinga a Tete atravessávamos o Malawi, ficava muitíssimo mais perto. Percebe-se melhor porque me referia há pouco ao factor de comunicação transfronteiriço". 

Concha Tello considera necessário apostar mais na difusão da língua portuguesa em Moçambique:
"Da experiência que colhi durante o período em que ali dei aulas, trago a noção de que tem que se apostar muito mais se se quiser manter o português como língua falada naquela zona de Moçambique, ou até mesmo em todo o país. Uma forma de contribuir para tal desiderato passa pela ajuda à constituição de bibliotecas, ou para o reforço dos fundos bibliográficos das já existentes". 

Do povo moçambicano, Concha Tello traça o retrato seguinte: "Gente que sofreu bastante, mas apesar disso muito alegre. É um povo acolhedor, caloroso e que nos faz sentir como irmãos".
No que reporta ao passado dos portugueses em Moçambique, a nossa entrevistada notou duas reacções diferentes: "As pessoas mais velhas adoravam que não tivesse havido independência, que os portugueses tivessem continuado a administrar Moçambique. Notei, da parte dos mais idosos, uma grande saudade do tempo dos portugueses. Os hospitais, as escolas, a administração pública funcionavam bem, era o que me confidenciavam alguns.
Já para os mais novos, Portugal é algo muito distante".

CHOCADA COM OS
SUL-AFRICANOS

Cumpridos mais de dois anos em missão, Concha Tello decidiu, na companhia de alguns colegas, calcorrear Moçambique "de lés a lés" antes do regresso a Portugal.
Diz que ficou negativamente impressionada com o comportamento dos sul-africanos que vão arribando cada vez em maior número:
"Chocou-me imenso o que se passava na zona de Bazaruto. Quando descemos para Inhambane encontrámos vários resorts, complexos turísticos de luxo. Ao que apurámos, a frequência desses complexos estava vedada às pessoas naturais de Moçambique.
Os cidadãos nascidos no país não tinham acesso às praias que os sul-africanos administravam, e é verdade que nunca vimos nenhum. Soubemos até de um episódio bastante revelador do estado a que as coisas chegaram. O Governador de Inhambane, na pele de simples veraneante, decidiu passar umas horas numa dessas praias, e também ele sofreu na pele o vexame da proibição de frequência. Voltou para trás e regressou com a polícia, mandando então prender quem o tinha impedido de entrar na praia. A impressão com que ficámos é que, aos poucos, as administrações provinciais estão a vender a costa moçambicana aos endinheirados estrangeiros". 

Outro pormenor negativo tem a ver com a depradação dos recursos naturais do país por parte dos forasteiros do sul:
"Surgem em caravanas, ao fim de semana, para apanharem peixes exóticos. Pedem esse serviço sujo às crianças, a troco de uma retribuição miserável. E não é dinheiro, mas sim rebuçados.
É por isso que as crianças têm o hábito de pedir sweety, sweety aos estrangeiros. Nem um metical gastam em Moçambique. E vêm para este país fazer o que, se calhar, já não os deixam fazer na África do Sul".

Leia também: Retrato de Lichinga

Links
Aeroporto de Lichinga
Saiba mais sobre Lichinga
Saiba mais sobre o Lago Niassa
Como chegar ao Niassa
 

 

Data de introdução: 2004-10-21



















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