O desafio da proximidade

1. Estar perto, a pouca distância no tempo, no espaço ou nas relações de parentesco, de alguém ou de alguma coisa é estar próximo. E alimentar essa capacidade e vontade de estar próximo é uma douta forma de vivência de proximidade.
E, neste mundo globalizado, as pessoas mostram-se particularmente disponíveis para ouvir falar de "proximidade". Não apenas por uma questão de moda, como também, ou sobretudo, por uma questão de sobrevivência na convivência...
Mas será a lei da proximidade a suprema e universal norma?
O povo, que muitas vezes até parece ter razão, costuma dizer que "nem tão perto que se abafe, nem tão longe que não se aviste".
E é uma sabedoria popular com evidente consistência. É que, nem sempre a proximidade no tempo, no espaço ou no afecto será a melhor opção para uma boa e eficaz filosofia de acção ou de reacção.

É que a proximidade no afecto muitas vezes ofusca a razão. Porque, como também diz o pensador, o coração tem razões que a razão desconhece.
E a proximidade no espaço não raramente perturba a noção da real dimensão. Porque quem está demasiadamente próximo tem dificuldade em abraçar o que algum distanciamento permitirá abarcar.
E a proximidade no tempo, muito frequentemente, favorece a agitação e faz diminuir a capacidade de discernimento. Porque a leitura dum acontecimento, em cima dele mesmo, será parcial e muito provavelmente mais apaixonada do que isenta.
Por tudo isso e, provavelmente, algo mais, em algumas situações, aconselhará a boa prudência um circunstancial e estratégico distanciamento.
Para evitar alguma precipitação, eventual asfixia, provável mau juízo ou sinuosidade de percurso...
2. Mas a proximidade não deixa de ser fascinante...
E por isso, normalmente tanto programas como discursos políticos a usam para cativar. Não será certamente por acaso e, normalmente, até será rectamente intencionado tal discurso.
Mas manda a boa prudência uma certa cautela: muitas vezes a proximidade só é chavão, de discurso ou programático, quando os actos eleitorais se aproximam. Passados eles, o discurso da proximidade é substituído pelo discurso da reconversão e da concentração. Então, o distanciamento é inevitável e irreversível...
Claro que são invocadas imperiosas razões, muitas vezes todas elas sujeitas a um mais ou menos camuflado ou cego economicismo... É a reconversão porque, argumenta-se, muitas respostas estão desadequadas e muitos serviços já não correspondem às necessidades que os impuseram. É a concentração para facilitar alguma agilização, acrescenta-se. Às vezes até parece que foram as próprias necessidades que se esfumaram...
Mas não: muito provavelmente, terá sido o discurso da utopia que deu lugar ao dito discurso da realidade ou do realismo...
Depois, em catadupa, segue-se a concentração de serviços, de escolas, de respostas. E, paralelamente, alguns espaços são reconvertidos não se sabe muito bem em quê ou em favor de quem... Finalmente, será o inevitável distanciamento: populações mais isoladas, mais afastadas umas das outras, mais fragilizadas e, muito provavelmente, bastante mais abandonadas.
É evidente que nem toda a reconversão será perversa como nem toda a concentração redundará em malefício.
Mas o distanciamento dessas pessoas, das vítimas que inevitavelmente se geraram, esse sim, jamais deixará de gerar desigualdade de oportunidades e fragilidade nas condições de vida...

3. Na causa solidária, a proximidade é sempre a melhor opção. A resposta próxima é, muito provavelmente, a melhor resposta, porque mais afectiva, mais ágil, mais eficaz e mais pronta. E, a vários títulos, a resposta mais próxima é, quase sempre, a menos onerosa. A particularidade específica da vocação dos agentes solidários é a da proximidade e não tanto a da grandiosidade...

Claro que quando se fala de proximidade nas respostas sociais, eventualmente, também se poderá ter de falar de reconversão. E muitas vezes até será necessária tal medida, desde que doseada: quem está próximo, por vezes, porque está próximo, verifica que tem de reconverter. Equipamentos e recursos. Interpelações e respostas. Meios e agentes. Em melhores equipamentos, melhores respostas, melhores meios. Com mais qualificados recursos, para novas interpelações, com renovados agentes...
Mas os agentes solidários são mais depressa chamados a responder aos efeitos colaterais da concentração e da reconversão que outros impuseram.
E aí está, muito provavelmente, um grande desafio com que se defrontarão muitas das nossas IPSS’s.
Há muitas zonas deste país em que a tal concentração ou reconversão de serviços gerou novos e assaz complexos problemas. Numas zonas, acabaram por restar espaços agora sem aparente e próxima utilidade; noutras, sobraram pessoas que se acotovelam.
Como sempre, vamos revelar capacidade de resposta.
Para as zonas em que a concentração arrastou mais desenraizadas pessoas vamos exigir espaços para respostas mais personalizadas.
Para aquelas zonas em que sobraram espaços, como muitas escolas que por aí parece ficarem desactivadas, antes que façam encher os cofres de alguns, vamos exigir que sejam esses espaços reconvertidos tendo sempre em atenção o serviço próximo, efectivo e afectivo das populações, visando a melhoria das suas condições de vida e um efectivo desenvolvimento social.
Para as respostas sociais afectadas, vamos descobrir novas expressões e novo futuro.
Provavelmente com respostas renovadas, reforçadas ou inovadas.
Mas sempre com respostas de pessoas, com pessoas e para as pessoas.
E sempre com respostas que ajudem as pessoas a evitar a queda em precipícios e a encontrar abrigo.

Mas sempre com respostas de proximidade porque proximidade é também esta capacidade de considerar os outros, raparigas e rapazes, homens e mulheres, idosos e novos, como semelhantes e companheiros em caminhos desbravados e percorridos na mira de um devir mais luzidio...

 

Data de introdução: 2006-04-06



















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