JOSÉ FIGUEIREDO, ECONOMISTA

Pode o capitalismo ser um agente moral? As novas recomendações da Business Roundtable

Tal como a democracia - que é o pior dos regimes com exclusão de todos os outros - também o capitalismo é um sistema cheio de defeitos. O problema está em que todas as alternativas até agora testadas ao sistema capitalista acabaram em tragédias. O inferno da Coreia do Norte dos nossos dias deveria ser suficiente para iluminar os que os que ainda possam ter ilusões nesta matéria.
Daí que um dos meus interesses maiores seja o de questionar o capitalismo enquanto agente moral. Podem as corporações capitalistas, sem deixar de o ser, promover voluntariamente o bem comum?
Aqui e ali vou encontrando manifestações dessa possibilidade e hoje gostaria de falar de um  movimento recente que provocou um grande debate a nível global.
A Business Rountable é uma associação em que têm assento os presidentes executivos das maiores empresas americanas que é o mesmo que dizer a maior parte das grandes empresas deste nosso vasto mundo.
O que se passa na Business Roundtable é importante porque, de tempos a tempos, a organização emite um conjunto de princípios a que deveriam obedecer as companhias capitalistas “bem-comportadas”.
Embora ninguém seja obrigado a seguir as recomendações da Business Roundtable, nem mesmo aqueles que participam na sua elaboração, a verdade é que a Business Roundtable vai, de alguma forma, refletindo o pensamento dominante, e, por isso, o que de lá sai é significativo.
Dá-se o caso de recentemente a Business Roundtable ter alterado a sua postura e isso conta!
Desde 1978 que a Business Roundtable recomendava a adoção do interesse do acionista, leia-se maximização do preço das ações, como objetivo último de uma corporação capitalista.
Este foco exclusivo no preço das ações tem provocado efeitos negativos em muitos domínios.
Um dos enviesamentos mais perigosos deste foco exclusivo no preço das ações é a tendência para a visão curta.
Como os gestores são pagos (por vezes em doses de muitos milhões de dólares por ano) em função da variação do valor das ações, privilegiam tudo o que possa favorecer a valorização das ditas no imediato mesmo que à custa dos benefícios de mais longo prazo.
Os acionistas deveriam contrariar esta visão curta e penalizar os gestores que só pensam na cotação em bolsa do dia de amanhã.
O problema é que, muitas vezes, acionistas e gestores estão alinhados na visão curta. Em muitos casos os acionistas são fundos de investimento que não têm qualquer ligação afetiva à empresa e que só estão à espera de uma valorização das ações para sair do investimento com uma mais valia gorda. E, quanto mais depressa, melhor!
Depois o foco exclusivo no valor para o acionista tem levado à generalização da engenharia financeira que permite, à custa de dívida, aumentar os lucros por ação mesmo quando a massa de lucros gerada pela companhia não aumenta.
Imaginemos uma empresa com um milhão de ações e que gera lucros de 5 euros por ação, ou seja, 5 milhões de euros de lucro total anual.
Imaginemos que essa empresa cota a 15 vezes o lucro anual por ação, ou seja, vale em bolsa 75 euros por ação.
Como a dívida está barata essa empresa pede um empréstimo de 7,5 milhões de euros pelo qual paga 1% de juros para comprar 100.000 ações da própria companhia.
Se, no ano seguinte, a exploração da empresa for rigorosamente igual terá um lucro de 5,47 por ação. O lucro total até é um pouco mais pequeno porque a empresa tem de pagar os juros do empréstimo, contudo, como o número de ações a quinhoar no lucro é agora de apenas 900.000 o lucro por cada ação sobe um pedaço.
Provavelmente, com lucros por ação a subir, as ações também sobem, os gestores recebem prémios chorudos e os acionistas (os de visão curta) ficam contentes.
É evidente que este truque não pode ser reproduzido eternamente e muitos se perguntam se já não se foi longe de mais na engenharia financeira.
Começa a ser claro para muitos no mundo corporativo que o mantra exclusivo do valor para o acionista gerou incentivos enviesados, levou os gestores a favorecer desmedidamente ganhos de curto prazo com consequências negativas para as empresas e para a economia como um todo. Muita da confusão que vimos no mundo financeiro na crise de 2008/2009 tinha a sua raiz na visão estreita dos ganhos imediatos, mesmo que à custa de riscos prontos para “explodir” no futuro.
A nova orientação proposta pela Business Roundtable é muito mais inclusiva. Defende que a corporação capitalista deve entregar valor aos consumidores, investir nos empregados, lidar de forma leal e ética com os fornecedores, apoiar as comunidades onde se insere e, finalmente, criar valor de longo prazo para os acionistas.
Obviamente trata-se de um propósito muito mais interessante que o velho e restrito mantra de criação der valor para o acionista. Como tal louve-se a mudança.
Contudo, convém não esquecer as fragilidades.
A primeira está ao nível do controlo. Na velha formulação era suposto que os acionistas controlavam os executivos cujo mandato era claro – prosseguir o seu interesse maximizando o valor das ações. Agora que há muitos interesses em jogo que modelo de controlo pode ser implementado? Quem vai representar a comunidade? Ou os trabalhadores? Que penalização para gestores que se afastem da orientação corporativa? Quem penaliza?
O segundo tema é o do possível conflito de interesses e de como geri-lo. Na formulação de 1978 esse problema não existia – havia apenas um interesse a prosseguir.
Imaginemos agora uma situação em que no interesse de longo prazo dos acionistas uma parte do processo produtivo deve ser deslocalizado de uma região rica do país para uma região mais pobre onde os salários são mais baixos. Pode ser bom para os acionistas, até pode ser bom para o país porque promove algum reequilíbrio regional, mas é seguramente mau para os trabalhadores que vão ficar desempregados.
Um problema similar se coloca se a deslocalização for para um país estrangeiro.
A quem se deve a maior lealdade? Aos acionistas, aos empregados, ao país?
Imaginemos também uma tecnologia disruptiva que pode ser importante para o futuro da firma, mas que elimina postos de trabalho, reduz o rendimento de muitos fornecedores e afeta fortemente a comunidade local. Que devem fazer os executivos da empresa tendo em ordem o novo código de conduta?
Fora de dúvida que a nova orientação da Business Roundtable é um avanço significativo. As fragilidades também são evidentes, mas progresso é sempre progresso e deve ser louvado.

 

Data de introdução: 2020-01-08



















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