A ANTA – ASSOCIAÇÃO CULTURAL E DESENVOLVIMENTO BEIRÃ, MARVÃO

Há 25 anos a ser o pilar de um território envelhecido e esquecido

Criada em dezembro de 1994, A Anta – Associação Cultural e de Desenvolvimento da Beirã, no concelho de Marvão, tem sido o pilar social de uma freguesia que sobrevive encostada a Espanha e longe dos grandes centros urbanos nacionais. Nasceu de um projeto de luta contra a pobreza, criou a primeira Unidade de Cuidados Continuados Integrados do distrito de Portalegre, mas tem vivido grandes dificuldades. São 25 anos de perseverança e resiliência com o propósito único de apoiar uma população cada vez mais envelhecida e… esquecida.
“Têm sido 25 anos de aventuras, de ultrapassar dificuldades, porque temos tido muitas, principalmente quando temos projetos grandes. Não tem sido fácil, mas também foram 25 anos de crescimento, de apoiar, ajudar e fixar a população e de diversificação de respostas sociais, para além do que contribuímos para a economia local”, assegura Sónia Mimoso, diretora-técnica da instituição do distrito de Portalegre.
“A instituição começou por funcionar numas instalações cedidas pela Câmara, onde foi desenvolvido um projeto de luta contra a pobreza, génese da instituição”, conta Sónia Mimoso, contextualizando: “Nessa altura, a freguesia da Beirã sofreu um grande choque com a abertura das fronteiras. Quando cá cheguei, há 22 anos, o que a população dizia era que ‘abriram-se as fronteiras e fecharam-se as portas da freguesia da Beirã’, porque a maioria das pessoas que aqui trabalhavam era na área dos serviços ligados à fronteira, como alfandegários, guardas-fiscais, etc., e com o fim das fronteiras houve muita gente que ficou desempregada. Famílias que viviam bem, com uma estrutura familiar, económica e social boa, de um momento para o outro, viram as suas vidas viradas do avesso. E, com o intuito de ajudar a renascer um pouco a freguesia, foi feito o primeiro projeto de luta contra a pobreza”.
E foi a partir deste projeto que se desenvolveram outros para apoiar a comunidade.
“Fez-se a candidatura para a criação do Centro Comunitário, que abriu portas em dezembro de 1999, com as valências de Centro de Dia, Serviço de Apoio Domiciliário (SAD) e tínhamos ainda a resposta de Apoio Domiciliário Integrado (ADI), que hoje já não existe. Realizámos os primeiros projetos de formação profissional voltados para as novas necessidades do concelho, nomeadamente a hotelaria, e reabilitámos habitações de idosos que estavam degradadas, entre outras ações”, recorda a técnica.
Posteriormente, A Anta adquiriu o edifício onde hoje funciona a Unidade de Cuidados Continuados Integrados (UCCI) e foi, então, que a instituição deu o salto e se desenvolveu para o que é hoje.
E atualmente a A Anta apoia 41 utentes em SAD e sete idosos em Centro de Dia, enquanto na UCCI trata de 20 doentes na Unidade de Média Duração e mais 10 na de Longa Duração.
Ao Centro Comunitário (Centro de Dia e SAD) estão adstritos 19 funcionários, enquanto a UCCI conta com 39 trabalhadores.
E se a UCCI é, atualmente, a âncora da instituição, a sua criação foi um processo complicado.
“O edifício da Unidade é a readaptação de um edifício classificado como Património do Estado e, segundo a qual, durante cinco anos, tinha que ter uma finalidade social. Após algumas negociações, a Direção conseguiu que fosse para instalar uma Unidade de Apoio Integrado (UAI), mas quando a obra foi finalizada esta tipologia deixou de existir. Ficámos com um equipamento pronto, mas sem resposta social, porque a UAI desapareceu e não havia acordo de cooperação. No entanto, o financiamento que obtivemos era para essa finalidade”, começa por contar, acrescentando: “Teve, então, a instituição que pedir autorização ao gestor do projeto para nos deixar alterar a tipologia do projeto. Após negociações com os ministérios da Saúde e da Segurança Social adaptou-se o edifício para a primeira UCCI do distrito de Portalegre, que abriu portas em julho de 2007, com a de Média Duração. E foi já em 2011 que inaugurámos a de Longa Duração”.
Para esta última já houve uma construção de raiz com o alargamento do edifício inicial e já respeitando tudo o que está previsto para as Unidades de Cuidados Continuados, “ao contrário da parte mais antiga, porque na altura a instituição seguiu o que estava previsto para as UAI”.
“A parte da Longa Duração foi financiada pelo Programa Modelar e já cumpriu todos os requisitos que eram exigidos na altura. Está preparada para no futuro poder receber mais utentes, porque a estrutura, a nível de construção de base, está preparada para receber um outro piso em cima. E isso é o que gostaríamos de concretizar futuramente”, sustenta Sónia Mimoso, apontando a sustentabilidade da instituição como objetivo: “Nós sentimos muito a questão da escala, por causa dos rácios de pessoal. A sustentabilidade da instituição só é conseguida porque temos as duas vertentes e vamos conseguindo porque os recursos humanos atuam nas duas tipologias”.
E se as dificuldades no arranque da resposta foram muitas, as coisas com o tempo não melhoraram, mas por outras razões.
“Quando abrimos portas em 2007 a realidade era completamente diferente. Ou seja, quando digo a realidade refiro-me às exigências e todos sabemos que o que custa mais às instituições são os recursos humanos. O quadro de pessoal que era exigido em 2007 não é o mesmo exigido agora e os acordos de cooperação não acompanharam estas exigências”, lamenta a diretora-técnica, especificando: “Por exemplo, em 2007 não tínhamos a exigência de uma nutricionista, de um farmacêutico, de um enfermeiro no período noturno, nem de uma animadora a tempo inteiro. E tudo isto a que a instituição teve de se adaptar e a que foi obrigada a contratar os acordos de cooperação não acompanharam. O que sentimos é que o bolo dantes era partido em fatias largas e agora já tem que ser partido em fatias muito finas. E sentimos muito isso, porque estas casas têm necessidade de manutenção, é necessário manter a qualidade do serviço e, muitas vezes, não conseguimos fazê-lo como queríamos e como o conseguíamos numa fase inicial”.
É uma questão de valores da comparticipação, porque os prazos até são cumpridos: “A nível de pagamento por parte dos doentes e dos ministérios não sentimos dificuldades, porque pagam-nos atempadamente. Ao contrário das valências sociais tradicionais do SAD ou Centro de Dia, e independentemente do que o doente pagar, a Unidade recebe sempre o mesmo, porque ou é pago pelo doente ou pelos dois ministérios”.
Apesar das dificuldades e vicissitudes, “a instituição encontra-se de boa saúde financeira, não tem dívidas e os pagamentos estão todos dentro dos prazos previstos”, no entanto, “os investimentos é que são afetados, porque não há folga”.
Para rentabilizar a instituição, os responsáveis optaram por centralizar alguns serviços numa das estruturas e outros noutra.
“Por exemplo, os serviços administrativos e a cozinha estão no Centro Comunitário, mas a lavandaria já está aqui na UCCI, e isto fez-se não só para rentabilizar equipamentos, mas também os recursos humanos”.
Na realidade d’A Anta, a única solução é candidatar projetos, mas… “têm que ser muito bem calculados, porque há sempre uma componente que fica na responsabilidade da instituição e é preciso fazer muito bem as contas a fim de saber se há capacidade para cumprir”, assevera a diretora-técnica, que sublinha os apoios da Junta de Freguesia, “que tem sido um parceiro”, e da Câmara Municipal, “que também nos apoia quando temos alguma necessidade”.
Aliás, é com a Autarquia que a instituição tem tentado conseguir um apoio que lhe permita fazer o arranjo do espaço exterior da UCCI, a fim de ali criar um jardim terapêutico e um apoio à reabilitação.
“Estamos a tentar negociar e sensibilizar a Autarquia para as necessidades que sentimos, desde o dia de abertura, e que são os arranjos exteriores, porque a candidatura foi apenas para o edifício. A instituição tem um projeto de candidatura para fazer os arranjos exteriores, mas não tem recursos financeiros para o executar. E quando há auditorias, a instituição fica um pouco prejudicada no sentido de quantificar os valores a atribuir segundo os itens que elas seguem, porque tem um exterior que não é bonito e as famílias queixam-se que não têm um espaço exterior para levar os familiares. E o nosso projeto não é apenas de fazer o arranjo exterior, ele abrange também uma intervenção no sentido da reabilitação, com um jardim terapêutico e a instalação de alguns equipamentos de reabilitação”, revela Sónia Mimoso.
Enquanto este projeto aguarda melhores tempos, a instituição prepara-se para, já em janeiro próximo e durante três anos, implementar o CLDS 4G, direcionado para o eixo do envelhecimento ativo e em que A Anta foi a instituição do concelho de Marvão escolhida para fazer a coordenação: “Vai criar mais empregos e vai dinamizar o concelho de Marvão”.
É que socioeconomicamente, a população que a instituição apoia, “para além de envelhecida, tem pensões baixas, relações familiares com distanciamento geográfico e social, pelo que costumo dizer que no futuro, para estas instituições conseguirem sobreviver, o modelo de financiamento não pode ser o atual”, sustenta Sónia Mimoso, exemplificando: “A nossa valência de Centro de Dia é deficitária e só a conseguimos manter porque o SAD e a UCCI equilibram as contas. De outra forma já tínhamos fechado portas. O Centro de Dia, atualmente, funciona como um lar de dia, com muitas exigências e responsabilidades, mas com baixos pagamentos, não dos utentes, porque não podem, mas das entidades competentes”.
E como seria a Beirã sem A Anta? “Não sei se daqui a uma década a freguesia existiria se não fosse instituição aqui estar, porque os jovens que aqui temos a trabalhar são daqui e de freguesias vizinhas e, se não houvesse a instituição, provavelmente, já teriam ido para outros locais. A escolas se não tivessem estes alunos já teriam fechado e iriam com as famílias para outros locais”, responde, de pronto, a diretora-técnica.

Pedro Vasco Oliveira (texto e fotos)

 

Data de introdução: 2020-01-08



















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