FUNDAÇÃO NOBRE FREIRE, BEJA

Sonho de instituição centenária é ter um novo e funcional edifício

Nasceu para acolher inválidos do trabalho há 112 anos e ainda hoje é uma casa que recebe os mais desvalidos na velhice, com uma média de idades a rondar os 80 anos e quase dois terços de dependentes. Situada no centro histórico de Beja, a Fundação Nobre Freire ambiciona mudar-se para um equipamento construído de raiz e que permita prestar melhores serviços em melhores condições aos seus utentes que “estão, nua e cruamente, no fim da vida”. Tal como muitas outras IPSS, por todo o país, a ambição esbarra na falta de financiamento para materializar o sonho.
Começou por se designar Asilo Nobre Freire, tal como à época estas instituições eram designadas, e destinava-se a acolher inválidos do trabalho. Estava-se em 1906 e Maria Angélica Nobre Freire, a fundadora, havia morrido há dois anos, tendo deixado expresso em testamento que legava “dinheiro e foros a diversas obras religiosas e de assistência e expressou a vontade de que, na sua casa de habitação, fosse estabelecido um Asilo para os inválidos do trabalho.
Hoje, 112 anos volvidos sobre o aparecimento da agora Fundação Nobre Freire, a instituição acolhe em lar 60 utentes, sete em Centro de Dia e presta cuidados a 74 seniores no domicílio. No lar a idade média é de 80 anos, sendo 43 dos utentes muito dependentes.
“A política da casa, desde a sua criação, foi sempre direcionada para acolher homens. Não conheço a razão para tal escolha, mas provavelmente a instituição não tinha condições para albergar mulheres. Hoje continua a ser apenas para homens, porque não temos condições para termos um lar misto. Em situações extremas já tivemos aqui senhoras, mas porque estavam com os maridos”, conta João Rosa, secretário da direção.
Quando em 1973 a instituição deixa a antiga habitação da fundadora e se instala no edifício onde ainda hoje funciona muita coisa mudou.
Cidália Guerreiro, diretora-técnica da instituição, recorda que naquele espaço a Fundação chegou a ter “à volta de 80 utentes, uma grande parte deles acamados em enfermarias”, lembrando que “o espaço era muito pequeno”, com “enfermarias com 10 camas”.
O edifício, uma espécie de solar centenário, teve que ser adaptado e, posteriormente, requalificado “para melhorar as condições, reduzindo o número de camas por quarto e encerrando três quartos, com três camas, pelas dificuldades de acesso, já que era num piso superior”.
Criar melhores condições para os utentes e para quem cuida deles é, segundo António Loução, presidente da instituição, “a luta do dia-a-dia”, ou seja, “criar o máximo de conforto e dar o máximo de dignidade às pessoas que, nua e cruamente, estão no fim de vida”. E se o lar está lotado, salta à vista o número escasso de utentes em Centro de Dia.
“Bem, chegámos a ter 40 utentes em Centro de Dia, mas antes de termos o Serviço de Apoio Domiciliário (SAD). Quando este surgiu houve logo menos procura do Centro de Dia, porque as pessoas assim ficam em casa, têm os mesmos serviços e estão na sua zona de conforto”, sublinha a diretora-técnica, ao que o presidente acrescenta: “Neste momento, o conjunto de respostas que a instituição dá, o Centro de Dia acaba por ser prejudicado. Depois, na cidade e no concelho de Beja há outras instituições que prestam os mesmos serviços”.
“Atualmente, o SAD atua mais na cidade, em alguns bairros e nas freguesias de Neves, que é um pouco mais distante, Penedo Gordo e Santa Clara de Louredo. É uma resposta mais centrada na cidade”, revela Cidália Guerreiro, apontando ainda outras razões para tal: “Há uns anos só a Fundação e a Cáritas faziam este serviço, entretanto mais duas instituições passaram a fazê-lo. Por outro lado, surgiram algumas Unidades de Cuidados Continuados Integrados (UCCI) que também vieram tirar alguns utentes às instituições. Dantes éramos muito contactados pelos hospitais, mas agora esses utentes são logo encaminhados para essas unidades”.
Mesmo assim, o vasto e fundamental serviço que a Fundação presta continua, de certa forma, condicionado pelo espaço onde é desenvolvido.
O ideal, dizem todos os responsáveis, era a construção de um equipamento de raiz. Porém, as dificuldades de financiamento para já ditam as regras, se bem que os dirigentes não abdicam do sonho de ter um “espaço construído de raiz e com uma melhor funcionalidade”. Mas já lá vamos.
Para já convém perceber as dificuldades da instituição, “cuja situação financeira está no limite”, como afirma João Rosa.
Com uma população de utentes, socioeconomicamente, “de perfil baixo”, o presidente da instituição frisa que “a política que é praticada na instituição tem em conta o que as pessoas ganham e os nossos utentes são pessoas das reformas de 200, 300 euros”.
Por isso, “a instituição está vocacionada para as pessoas que menores reformas têm e nesse sentido aplica a fórmula da Segurança Social”, acrescenta, lembrando que, no privado, “há casais que pagam 1.600 euros por cada elemento”.
João Rosa tem uma explicação para o facto de os utentes da Fundação serem pessoas “de baixos recursos económicos e muitas dependentes” e que de certa forma explica a situação financeira da instituição: “A saúde financeira da instituição está no limite. Há instituições que quando as pessoas vão inscrever-se o que lhes é pedido à partida são os documentos do IRS e da reforma, mas nós aqui, já há uma série de direções, que nunca exigimos essa documentação. As pessoas inscrevem-se quando têm necessidade e a entrada na instituição não tem que ver com o perfil socioeconómico da pessoa, nem com a data de inscrição. A entrada tem que ver com as necessidades, a diretora técnica faz a avaliação e é em face disso que as pessoas entram. E é só depois da pessoa dar entrada que são pedidos os documentos para encontrar o valor da mensalidade. Se todas as instituições seguissem esta política, se calhar, os utentes que mais podem e os que menos podem pagar estavam mais divididos por todas. Assim, sobram-nos as pessoas muito dependentes e com baixos recursos económicos, mas é para isso que existem as IPSS. E não pretendemos mudar de política enquanto nos for possível”.
Ainda sobre a situação financeira da instituição, o secretário da direção sublinha que, “para já, está tudo em dia, salários e atualizações de vencimentos, mas é preciso uma gestão muito rigorosa e criteriosa e é muito difícil de fazer”, deixando uma crítica: “Outro dos problemas que temos é quando são atualizadas as tabelas salariais, porque nós cumprimos de imediato e as comparticipações do Estado só vêm à posteriori… Já para não falar nos retroativos, como foi há dois anos, que tivemos de uma vez que pagar 28 mil euros. Mas isto é a vida das IPSS”.
Apesar das dificuldades, os dirigentes da Fundação Nobre Freire não baixam os braços e tudo tentam para melhorar as condições dos seus utentes e trabalhadores, que no total são 58.
Daí continuarem a alimentar o sonho de dar uma casa nova à instituição.
“Os investimentos feitos neste edifício centenário, que ocupamos desde 1973, têm sido muito complexos. O ideal era irmos para um equipamento novo e a Câmara já nos deu essa possibilidade, tendo-nos proposto dar um terreno. O pior é o resto. Se nos dessem um terreno e nos garantissem que este edifício era vendável, até dava para avançarmos”, defende António Loução, ideia corroborado por João Rosa: “O ideal para este edifício, dada a localização no centro histórico da cidade, era fazer um hotel de charme. Mas para isso era necessário arranjar uma entidade que ficasse com este e nos fizesse um equipamento de raiz. Ora, isso não é fácil! Este é um edifício muito antigo, que por mais obras que se façam são obras que nunca estão terminadas, pelo que o melhor para a instituição era um edifício de raiz, com melhor funcionalidade e melhores condições”.
Para o presidente, este passo não esbarra no terreno, que “não seria o problema, mas sim como construir o edifício, uma vez que a instituição não tem capital e nem há financiamento público”.
Outra medida que está prestes a avançar é a da colocação de painéis fotovoltaicos.
“O projeto dos painéis solares é muito importante, porque os custos com a energia são muito elevados. Atualmente pagamos três mil euros mês de eletricidade, mas com um investimento de cerca de 30 mil euros conseguimos reduzir o consumo em cerca de 50%. O projeto paga-se em dois anos, mas é necessário fazer o investimento”, constata João Rosa, ao que António Loução acrescenta: “É uma loucura pagar três mil euros de luz e 1.200 de água por mês”!
Estas necessidades de investimento, com retorno garantido e para breve, levantam obstáculos aos dirigentes, que têm ainda outra necessidade em mãos.
“Há pouco tempo recebemos 11.500 euros do Fundo de Socorro Social para a aquisição de uma viatura de nove lugares equipada para o transporte de pessoas com mobilidade reduzida. O problema é que a carrinha custa 34 ou 35 mil euros”, afirma o secretário da direção, revelando que será necessário a instituição “recorrer à banca”, com todos os encargos que isso acarreta.
À questão de como seria Beja sem a Fundação Nobre Freire, Cidália Guerreiro responde que “não era a mesma, porque haveria menos respostas para as pessoas”, João Rosa sustenta que “Beja seria igual, as pessoas é que passariam mais dificuldades”, enquanto António Loução prefere elogiar o trabalho feito: “O serviço que prestamos à população, com 60 pessoas internadas, às quais tudo fazemos para que tenham uma vida com dignidade, é uma ação muito meritória”.

Pedro Vasco Oliveira (texto e fotos)

 

Data de introdução: 2018-09-26



















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