CENTRO SOCIAL PAROQUIAL DE S. JACINTO, AVEIRO

Falta de crianças na freguesia pode levar ao encerramento

Única instituição social da freguesia, o Centro Social Paroquial de S. Jacinto, concelho de Aveiro, vive no limite das possibilidades e lá vai conseguindo manter em cima da corda bamba em que vive há uns anos. As razões são várias, mas as principais passam pela localização e, essencialmente, a falta de crianças, que no futuro ameaça mesmo a continuidade da IPSS.
Situada na ponta de uma língua de terra, a situação geográfica de S. Jacinto mais se assemelha à de uma ilha. Com o mar de um lado, a ria de Aveiro do outro e uma longa estrada de 12 quilómetros até à Torreira, localidade mais próxima pela única via terrestre que existe, a freguesia de S. Jacinto está longe de tudo. E se isso agrava a situação do aglomerado populacional, o maior problema é mesmo a falta de emprego que leva os jovens a não se fixarem, nem tão pouco a atrair nova população.
Este é o cenário traçado pelo padre Abílio Araújo, presidente do Centro Social Paroquial de S. Jacinto, e que o leva a considerar “que, mais ano menos ano, temos mesmo que fechar a porta por não termos utentes”.
De momento, a instituição acolhe 20 crianças em creche, apesar de a capacidade ser de 25, 17 petizes em Pré-escolar e outros 20 no ATL, no que respeita à infância, acolhendo ainda 20 seniores na resposta Centro de Dia.
A IPSS do concelho de Aveiro, que tem a ria a separá-la da sede de concelho e que, noutros tempos, era uma via de comunicação privilegiada, mas hoje é um obstáculo para a freguesia, nasceu em 1982, mas só em 1989 o registo foi publicado em Diário da República, funcionando no salão paroquial e apenas com a resposta social de ATL.
Mais tarde, com a construção do edifício onde funciona ainda hoje alargou as respostas da infância, primeiro com a creche e depois com o pré-escolar, e só mais tarde ainda é que surgiu o Centro de Dia, a única resposta para a terceira idade.
“A necessidade era dar resposta às crianças da escola, que na altura eram muitas”, refere Tânia Almeida, diretora-técnica da instituição.
“Sobre a década de 1980 e 1990, falamos de tempos em que o estaleiro naval estava ativo e vinha muita gente de fora para trabalhar lá. Praticamente toda a gente de S. Jacinto trabalhava nos estaleiros, ou na área militar, por causa da base aérea que empregava muitos civis, ou até mesmo na extração de areias. E só para os estaleiros vinha muita gente de fora, casais novos que se mudavam para cá. A escola primária tem quatro salas que chegaram a funcionar com desdobramento, hoje falamos de uma sala ou duas”, retrata o padre Abílio Araújo, que prossegue: “O estaleiro faliu, a área militar emprega muito poucos civis e não há empresas que estejam aqui sedeadas. Neste momento, a freguesia vive da restauração e da Junta de Freguesia, em termos de emprego, e o Centro Paroquial é capaz de ser já o maior empregador com os seus 10 funcionários”.
A situação é de tal forma preocupante que o pároco sustenta que “se fosse hoje não se criaria uma IPSS centrada na infância, porque, de facto, não justifica”.
À falta de população, cada vez mais reduzida, à exceção da época alta de verão em que mais do que duplica, acresce “o nível sócio-económico baixo” da população de S. Jacinto: “Quem cá trabalha na restauração tem salários mínimos, na pesca é o que se sabe, e muitas vezes as pessoas declaram os mínimos, e há ainda os RSI e reformados”.
Obviamente, tal situação reflete-se nas mensalidades a pagar pelos utentes e famílias, que “são também elas muito baixas”, acrescenta Tânia Almeida.
Por isso, a instituição tem-se debatido com problemas de sustentabilidade.
“É sempre a contar os cêntimos. Temos os nossos compromissos atualizados, porque conseguimos entretanto equilibrar as contas, pois tivemos aí um período de atrasos, até nos vencimentos. Quem mais sofreu foram mesmo os funcionários, porque acabavam por receber mais tarde o que lhes é devido por direito”, afirma o presidente da instituição, deixando um elogio: “Há que realçar a postura dos funcionários que compreenderam a situação e não baixaram os braços. Neste momento falta ainda atualizar um subsídio que está em atraso”.
Para a diretora-técnica, “a instituição sobrevive e é um desafio constante” mantê-la viva.
Perante este cenário, falar de investimentos é algo que soa a distante, muito distante.
“Há sempre receio em arriscar investimentos porque é muito complicado na situação em que a instituição se encontra. Não temos donativos significativos e depois isto é uma comunidade pequena e isolada. Isto é uma ilha isolada e o Centro Social nem sempre é olhado como uma mais-valia para a terra e, por vezes, até é visto como um inimigo. A comunidade desconfia. Por exemplo, temos as pessoas que temos cá a trabalhar, mas há outras pessoas que também precisam de trabalho e isso é-nos cobrado, ou seja, por que é que estão estas e não estão outras?”, argumenta o pároco.
Mesmo assim, segundo Tânia Almeida, “as pessoas reconhecem o trabalho que a instituição faz com as crianças, não só em S. Jacinto como também na Torreira, de onde vêm algumas crianças para a creche”.
Para além da ajuda do Banco Alimentar e de pontuais apoios da Base da Força Aérea sedeada na freguesia, nada mais.
“Não somos herdeiros de fortunas nem de donativos significativos”, afirma o padre Abílio Araújo.
A instituição tem um protocolo anual com a Câmara Municipal de Aveiro para o fornecimento de refeições à escola, já para o terceiro ano, sendo habitualmente cerca de 25 refeições dia.
“Isto também é uma boa ajuda para a sustentabilidade”, refere Tânia Almeida, com o pároco a reforçar: “O aumento do custo com as refeições escolares é apenas porque tem que se fazer mais comida, porque a estrutura e os recursos humanos são os mesmos. E, depois, aqui em S. Jacinto as crianças têm essa vantagem porque almoçam no sítio onda a comida é confecionada, não tem que ir em marmitas para ser consumida noutro lugar”.
A situação de falta de crianças para as respostas sociais não é de agora e, nem foi no tempo da crise que se agravou.
“Nos anos da crise tivemos uma diminuição mas não foi significativa, porque se o tivesse sido já teríamos fechado portas. O que nos afeta mais é o isolamento. Aqui estamos restritos às crianças de S. Jacinto, porque não estamos no cruzamento de vias nenhumas e ninguém vem trabalhar para aqui. Há algum apoio da Torreira, porque como não tem creche e as crianças acabam por vir para cá, mas estou em crer que a tendência é para a diminuição continuar a acontecer. Tenho consciência de que, mais ano menos ano, temos mesmo que fechar a porta por não termos utentes. Há de facto uma redução significativa de crianças em S. Jacinto”, lamenta o padre Abílio Araújo.
E será esse o momento para uma inversão no serviço da instituição, passando da infância para a terceira idade? “Poderá ser uma possibilidade, se houver fundos que possam ajudar à qualificação do edifício, que não está minimamente vocacionado para receber pessoas idosas”, atira de pronto o presidente da IPSS.
Para a diretora-técnica, “o ideal aqui era o Apoio Domiciliário, que não há”: “Os idosos querem muito estar em casa e não querem de lá sair. Em 2009 candidatámo-nos ao POPH, à medida 6.12, SAD e ERPI, mas não foi aprovado. E mesmo que fosse aprovado seria muito difícil avançar com o projeto por falta de recursos”.
A isto acresce, segundo o pároco, a mentalidade piscatória, muito enraizada em S. Jacinto.
“A mentalidade das pessoas daqui levanta problemas em deixar entrar quem quer que seja em casa. Mesmo na freguesia vizinha da Torreira, uma IPSS de lá tem o Centro de Dia cheio, com 20 pessoas, mas o Apoio Domiciliário são cerca de 12 e com sorte. A influência da mentalidade piscatória está muito presente e para o pescador em casa dele entra quem já é amigo, não se abre a porta a qualquer pessoa. Quando há 12 anos vim para cá foi uma das diferenças que notei, porque vinha da zona de Águeda, onde mal se chegava era-se logo amigo. Aqui, primeiro testa-se bem testado e só depois passa a ser amigo”, argumenta o padre Abílio Araújo, acrescentando: “Por isso, aqui a implementação do SAD tem esta dificuldade, porque é uma comunidade bastante fechada. Temos, de facto, uma população idosa, mas também não temos gente suficiente para tornar a valência sustentável, apesar de ser algo já necessário para algumas pessoas”.
Perante a questão se uma ERPI valeria a pena, Tânia Almeida é perentória: “Um lar não é viável em S. Jacinto”.
Ao longo da conversa com os responsáveis pelo Centro Social Paroquial de S. Jacinto perpassa um sentimento de abandono, de uma gente que se sente ali esquecida e pouco ou nada tem.
“Esse é o sentimento que temos. Tendo em conta que S. Jacinto é concelho de Aveiro, mas que tem a ria a dividir, ria que noutros tempos até poderia ser uma boa via de comunicação e de ligação à cidade, na realidade atual é um obstáculo natural. O município da Murtosa, que é o mais perto por via terrestre, está a 12 quilómetros”, afirma o presidente da instituição, deixando uma crítica aos políticos: “Falta aqui, de facto, uma visão estratégica e saber o que se quer para S. Jacinto. Uma reserva natural com pessoas mas que terão tendência a desaparecer? Uma estância turística? Acho que, do ponto de vista do poder político, não há uma aposta naquilo que possa ser um polo de desenvolvimento para S. Jacinto. Há umas iniciativas pontuais, como um festival de música, o Dunas, o Centro de Alto Rendimento para Surf, com excelentes condições, e que realizou um evento de três dias, no entanto, são ocupações sazonais. Não há um polo atrativo permanente que fixe as pessoas. Ao fim de uma semana em S. Jacinto a pessoa está cansada de descansar, porque não há nada. Isto exige um polo agregador que gere emprego e que inove as dinâmicas. Essas iniciativas não são de desvalorizar, mas se acontece algo uma vez no ano, passado o evento ficamos na mesma! Isso não é um polo de desenvolvimento. A maior unidade de alojamento de S. Jacinto deve ser o campo de formação dos Escuteiros, por onde passam centenas de escuteiros por ano, mas vêm cá uma semana e vão embora”.
E como seria S. Jacinto sem o Centro Social Paroquial?
“Aí a comunidade poria as mãos à cabeça e via a falta que isto faz. Quando isto acabar é que vão pensar: E agora?”, sustenta Manuel Lourenço, vice-presidente da instituição, ao que o padre Abílio Araújo acrescenta: “S. Jacinto estaria ainda pior se não tivesse o Centro Social”.

Pedro Vasco Oliveira (texto e fotos)

 

Data de introdução: 2017-09-09



















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