JOSÉ FIGUEIREDO

Massas e elites

Uma das formas de justificar a vitória de Donald Trump é o afastamento entre as elites e as massas populares.
A favor dessa tese milita um aparente argumento de facto – as elites genericamente pareciam desejar a vitória de Hillary Clinton como, aliás, pareciam querer a vitória do Sim no referendo do Brexit.
Notar que quando aqui falamos de elites não falamos necessariamente das elites económicas embora, pelo menos em termos de manifestação pública, também essas fossem genericamente anti Trump e anti Brexit. Por elites económicas entendo aqui não tanto os detentores das grandes fortunas (sobre esses sabemos em geral pouco, tendem a ser discretos) mas, sobretudo, aqueles que, por profissão, gerem as maiores empresas e têm maior visibilidade pública.
A questão está em perceber como, num quadro em que as elites intelectuais, políticas, culturais, os media respeitáveis e até os poderosos do dinheiro eram claramente a favor de Hillary Clinton e anti-Brexit, o “povo” decidiu em sentido contrário. Porque diabo o “povo” decidiu ignorar as elites e votar em soluções aparentemente aberrantes? Porquê agora? Porquê o mesmo fenómeno em várias geografias do mundo do capitalismo avançado?
Parte da explicação está na economia, na distribuição assimétrica dos benefícios da globalização, na crise do mito da mobilidade social ascendente, mas a economia não explica tudo, não pode explicar tudo.
Não se nega que a distribuição mais desigual de rendimento e riqueza afasta as elites das massas, claro que o fim da crença na mobilidade social ascendente também alarga o fosso (torna-o intransponível ou percebido como tal), no entanto, tem de haver algo mais profundo para explicar o que estamos a ver.
Num certo sentido as elites modernas são mais toleráveis pelas massas. É suposto que são os melhores que estão no topo e não os bafejados pela sorte de um bom nascimento. Numa meritocracia toleramos melhor as distâncias.
Acredito que uma parte do fosso que manifestamente existe (e se está a alargar) deriva de fatores culturais.
Também aqui, na área da cultura, sempre existiram elites e massas. Os leitores contemporâneos de Balzac ou Stendhal eram uma ínfima minoria da população. No grande século romântico poucos eram os privilegiados que ouviam um concerto de Schumman ou Brahms. O acesso à grande cultura não ia para além de alguma aristocracia diletante, um pouco de burguesia culta e uns quantos intelectuais extraídos da pequena burguesia e, raramente, do “povo”.
As coisas mudaram um pouco no século XX. O aparecimento dos meios modernos de comunicação de massas (rádio e televisão), a escola pública, um capitalismo mais inclusivo e políticas públicas empenhadas permitiram uma maior difusão da grande cultura e o esbatimento das distâncias culturais.
Por exemplo, no tempo do anterior regime em Portugal, a ópera chegou a ser um espetáculo popular. Récitas populares enchiam regularmente os coliseus de Lisboa e do Porto coisa que hoje seria impensável. Recordo-me de, em rapaz, assistir em Viseu a espetáculos da companhia de bailado Verde-Gaio que ocorriam em palcos improvisados, ao ar livre no parque da cidade, com um público popular e interessado.
Nas últimas décadas as coisas começaram a mudar de novo.
A televisão, particularmente na Europa, tendia a ser um negócio de estado por uma razão muito simples – a sua produção era muito cara e dificilmente seria suportada por mercados privados.
Com o progresso tecnológico os custos de produção e difusão de televisão ficaram tão baixos que o negócio de privados se tornou a norma. Com a mercantilização da televisão veio a luta por market share, a contabilidade doentia das audiências e o telelixo.
Acontece que as elites atuais nutrem um profundo desprezo por essa “cultura” de massas.
Desprezam os que assistem aos reality shows, os que consomem a manhã e a tarde com os talk shows popularuchos e à noite não dispensam a dose diária e maciça de vício telenovelesco.
As elites sentem-se encurraladas nesta matéria. Sendo as elites, em geral, de tendência liberal e pró-mercado, lidam dificilmente com o facto de a “grande cultura” (a que elas consomem) ser viável apenas com subsídios públicos ao mesmo tempo que os desprezíveis produtos da “cultura” de massas prosperam em pleno mercado. O “povo” que paga (ou julga que paga) essas exorbitâncias com os seus impostos não acha graça nenhuma à “grande cultura”. Raiva de um lado e do outro!
Mas o fosso não se manifesta apenas no mútuo desprezo dos consumos de produtos culturais.
As elites também desprezam os que enchem os Mac Donald ou as Pizza Hut da vida. Afinal não se empanturram com comida de má qualidade? Não enxameiam depois os hospitais públicos com as suas doenças, em boa parte causadas por maus hábitos alimentares? E não somos nós, as elites, que pagamos esses hospitais com os nossos impostos? Não merece essa gente um corretivo?
A ideia de taxar pesadamente certos produtos como as bebidas açucaradas é uma daquelas coisas que alarga o fosso cultural. Admito que em Portugal, a ideia derive mais da pura necessidade de cavar dinheiro do que de qualquer propósito moralizador ou de saúde pública. Contudo, para as pessoas que consomem esses produtos, porventura porque não têm acesso a produtos mais caros e mais saudáveis, medidas como esta ajudam a reforçar a ideia de que elites longínquas decidem com base em critérios que os desprezam.
Em matéria de roupa voltámos quase às pragmáticas do século XVII. Houve um tempo em que leis do estado determinavam o que cada um podia vestir em função do seu estatuto social. Gente do povo, mesmo que endinheirada, não podia vestir o mesmo que um fidalgo ainda que arruinado.
Hoje assinalamos as pessoas pela forma como se vestem. As marcas, por vezes abundantemente exibidas, definem uma pertença a um grupo. Para aqueles que estão condenados a comprar roupa barata é um escândalo compreensível que algumas pessoas paguem por algumas peças de vestuário o que eles ganham num mês de trabalho. Mas pior ainda é o saber-se que se pertence a um outro mundo e que esse outro mundo é explícito, que o declaramos todos os dias no nosso exterior.
Raiva em cima de raiva, desprezo em cima de desprezo, distância cada vez maior.
Naturalmente que não sei porque razão Hillary Clinton perdeu. Mas creio que houve um momento chave na campanha. Foi quando Clinton classificou em público os apoiantes de Trump como “deplorables”.
Clinton ainda tentou compor as coisas mas o mal estava feito – tinha confessado que o fosso existe e de que lado ela estava. Do outro lado estão os que vêm reality shows, se empanturram de Mac Donald, se vestem com falta de gosto, nunca leram um livro, não distinguem um piano de uma harpa e não sabem onde fica a Birmânia.
Mas, querida Hillary, eles também são “povo” e decidiram que já não estão para aturar os conselhos das elites que os deixaram para trás.
A boa notícia em tudo isto é que acredito que as elites do mundo desenvolvido ainda não perderam a guerra, que a confiança nas massas não se perdeu para todo o sempre. Mas que é preciso mudar de vida, lá isso é!
Para os que eventualmente achem estranha esta conversa num cantinho de economia eu explico: é que, porventura, entre as elites, os economistas são dos que mais culpas têm no cartório. Falaremos disso um destes dias.

 

Data de introdução: 2017-01-07



















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