JOSÉ FIGUEIREDO

Vem aí uma nova crise bancária?

Os sinais são preocupantes.

A saga do Deutsche Bank parece não ter fim. Em Itália o crédito mal parado não tem solução à vista. Na China, provavelmente o lugar mais perigoso do planeta, ninguém faz ideia do valor do mal parado “real” no sistema bancário. Só na Europa existem 1,3 triliões de euros de crédito mal parado – mais que o PIB de Espanha e Portugal juntos e ainda sobram uns trocos!

Isto é, numa primeira vista, no mínimo paradoxal. Depois da crise de 2008, despoletada pela falência do Lehman Brothers, é suposto que foram tomadas medidas radicais para tornar os bancos mais seguros. Como compreender então que estejamos de novo à beira de uma crise global nos sistemas bancários depois de tanto dinheiro público e privado despejado em cima do sistema e depois de tantas medidas corretivas?

Em parte o paradoxo resolve-se se refletirmos nas consequências do excesso de confiança/dependência da política monetária.

Os bancos centrais ficaram sozinhos na luta contra a crise económica que se seguiu à debacle dos sistemas financeiros em 2008/2009 – os políticos debandaram da frente de batalha.

No pico da crise ainda se viu algum suporte da política orçamental nos Estados Unidos, na Europa e na China. Contudo, foi curto e de curta duração. Em pouco tempo, o medo da dívida pública, particularmente na Europa, levou à retirada dos estímulos públicos e os bancos centrais ficaram a falar sozinhos.

Os bancos centrais fizeram o que podiam fazer, ou seja, levar as taxas a zero (agora negativas nalgumas geografias). Como não foi suficiente embarcaram em modelos não convencionais, nomeadamente comprar massivamente ativos financeiros injetando liquidez adicional na economia.

Segundo os manuais isto devia ter resultado. A procura deveria ter sido estimulada, a inflação devia estar a picar e os estímulos convencionais e não convencionais deveriam estar agora a ser retirados e revertidos.

Mas o que se vê é completamente diferente. Na Europa, Japão e China o quer se antevê não é o regresso à “normalidade” e reversão dos estímulos extraordinários mas, pelo contrário, a expectativa é que novos estímulos (e porventura mais radicais) estejam no terreno ainda este ano. Apenas nos Estados Unidos o caminho de reversão começou ser feito (as taxas subiram em finais de 2015 e a compra de ativos já estava fechada desde 2014), contudo, mesmo por lá a coisa parou e, no melhor dos cenários, ocorrerá um novo aumento de 25 pontos base na taxa diretora até ao final de 2016.

A persistência desta anomalia (vai para 7 anos) arrasou os bancos.

Desde longo comprimiu as margens financeiras porque as taxas ativas (as taxas que os bancos cobram aos clientes) baixaram e o custo dos depósitos reduziu-se de forma menos que proporcional. Para manter as margens financeiras os bancos deveriam ter colocado as taxas dos depósitos dos clientes em território negativo coisa que muito poucos bancos se atreveram a fazer por razões mais que óbvias.

Depois o ambiente criado inevitavelmente levaria ao aumento do mal parado. Como as economias não recuperaram, o cenário de deflação que entretanto se instalou aumentou o valor real das dívidas – estas mantêm o valor nominal mas os cash-flows corporativos que as deviam pagar encolheram. O que já era difícil ficou mais difícil e que era muito difícil virou impossível. É por isso que o mal parado está a subir um pouco por todo o lado.

O facto de, hoje em dia, um balanço típico de um banco típico ter 50% de exposição a imobiliário não ajuda, pelo menos enquanto os preços não recuperarem a sério.

Finalmente também não ajudou nada a queda das commodities em particular das energéticas - só no sector energético os bancos têm uma exposição global de 3 triliões de dólares. Se é certo que as big oil têm balanços que podem resistir a terramotos já não é assim com as empresas mais pequenas e que levantaram montanhas de dívida quando os preços do petróleo pairavam na casa dos 100 USD por barril.

Para piorar as coisas os ativos que foram objeto de compras massivas por parte dos bancos centrais têm valores atuais muito elevados. Esses ativos são colateral de operações bancárias diversas. Como vai ser quando os bancos centrais levantarem o pedal e o valor dos colaterais vier por aí abaixo?

Os bancos enfrentam uma tempestade perfeita de margens a encolher, mal parado a crescer e necessidade de mais capital que o sector privado não pode ou não quer comprometer.

O caso não é simples.

Em tempos normais recupera-se um banco impondo perdas a acionistas e credores, reforçando o capital, limpando o mal parado e reduzindo custos operacionais.

O problema é que nada disto é fácil no atual quadro económico e sobretudo político.

Não é fácil chamar capital novo e bom aos bancos quando as perspetivas de retorno são tão negras – quem vai investir num negócio em que as margens encolhem e o mal parado cresce?

Se é relativamente fácil e pacífico impor perdas a acionistas já não é assim com credores júnior. Veja-se o caso italiano onde boa parte da base de credores juniores dos bancos são pequenos aforradores de retalho, em geral entre remediados a pobres. Quem vai explicar-lhes que perdem as poupanças de uma vida quando até lhes venderam a dívida do banco como se de depósitos se tratasse?

Em Portugal já tivemos que baste destas trapalhadas com o BPN, o BPP, o BANIF ou o BES.

Limpar mal parado pode também não ser assim tão simples. O caminho óbvio é vender esses ativos, por uma parte do valor nominal, a entidades privadas que se ocupem da sua cobrança na esperança de fazer um lucro.

O problema é que em muitas geografias, como é o caso de Itália ou Portugal, isso pode não ser uma coisa fácil. Na verdade só é viável transacionar créditos em stress quando o sistema judicial funciona de forma minimamente eficiente. Caso contrário, quando processos de insolvência e cobrança coerciva podem demorar anos, quem vai comprar créditos em mau estado?

Reduzir custos operacionais ainda pode ser o mais fácil. Já ninguém se comove quando um banco despede milhares de trabalhadores e fecha um sem número de agências. Mas, como é evidente, perante a magnitude dos problemas, o que pode ser conseguido com redução de custos operacionais é pouco mais que um xixi de criança no meio de um oceano de problemas.

Contudo, o que vejo com maior angústia é que estamos hoje em muito pior situação do que estávamos em 2008/2009 para acudir aos bancos caso seja necessário.

As coisas começam na política.

Seria necessária uma dose olímpica de coragem para, hoje em dia, salvar um banco com dinheiro dos contribuintes. A imagem dos bancos é tão má, tão má, há um tal odioso às damas e cavalheiros que arruinaram os sistemas bancários no run-up da crise financeira que qualquer governo que comprometesse dinheiro público para salvar um banco cometeria hara-kiri político.

A alternativa de pôr a pagar os credores, no limite os depositantes acima do valor seguro, é tão politicamente demolidora como despejar dinheiro público em cima do problema.

A economia é gasolina em cima do incêndio. Enquanto o espectro da deflação se mantiver presente, enquanto as margens de intermediação permaneceram encolhidas, não há capital fresco para os bancos. Para aperfeiçoar a tempestade, no longo prazo, é mesmo discutível que, com as revoluções tecnológicas em curso, exista espaço disponível para os bancos como os conhecemos hoje. Tampouco o dinheiro de hoje existirá no horizonte de umas poucas décadas.

Se quisermos ir à essência dos problemas devemos tomar a perspetiva ingénua que permitiu a Einstein perceber a relatividade do tempo. Colocado perante o paradoxo de observadores em movimento medirem a mesma velocidade da luz, o que parece absurdo, Einstein não perdeu muito tempo nem a discutir os dados experimentais nem com filosofias. Limitou-se a aceitar a realidade tal como se apresentava. Velocidade é distância a dividir por tempo. Se a velocidade é constante para observadores em movimento isso só pode ser porque esses observadores medem distâncias e tempos distintos. Parece absurdo? Talvez! Mas não há explicação melhor.

Com os bancos á a mesma coisa. Estamos todos fartos de saber que bancos complexos e universais são propensos a excessos e a crises. Em vez de andarmos à procura do Santo Graal dos bancos tal como hoje existem que tal reconhecer que não há forma de eliminar o risco?

Solução? Bancos mais simples e de propósitos limitados. E disso já falámos numa crónica anterior.

 

Data de introdução: 2016-08-04



















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