JOSÉ FIGUEIREDO, ECONOMISTA

SOBRE A DESIGUALDADE: A ameaça das máquinas

Uma nova ameaça paira sobre o frágil equilíbrio das sociedades modernas – a ameaça das máquinas.

Como tenho tentado demonstrar nesta série de textos, não é fácil, se nos quisermos manter no plano do discurso “científico”, estabelecer as causas do desequilíbrio crescente da riqueza, do rendimento e das oportunidades nas sociedades de capitalismo avançadas.
Contudo, seguramente, a tecnologia não está inocente no caso – alguma culpa terá neste cartório. Uma boa parte do crescimento do fosso que separa os que têm e os que não têm deve-se à evolução tecnológica.
Aqueles que como eu têm por volta dos 60 anos ainda se lembram de profissões que praticamente desapareceram. Já não há dactilógrafas, telefonistas ou operadores mecanográficos. Muitas das profissões administrativas, que constituíam boa parte da base das classes médias, desapareceram com a evolução das tecnologias de informação e comunicação.
Contudo, o que vimos no passado em matéria de extinção de emprego de nível intermédio pode ser uma amostra ínfima do que nos espera com duas revoluções em curso – a robótica e a inteligência artificial.
Um estudo recente da Universidade de Oxford afirma que quase metade dos empregos atuais poderá ser substituído por máquinas nos próximos anos.
Não se pense que estão apenas em causa tarefas pesadas ou rotineiras. Acredita-se, por exemplo, que dentro de alguns anos boa parte do diagnóstico médico possa ser feito por máquinas.
Os automóveis/camiões que não necessitam de condutor não são ficção científica. A Rio Tinto, uma das gigantes mineiras a nível mundial, numa das suas minas australianas, está já em fase de testes de um sistema onde todos os camiões serão movimentados sem necessidade de motorista.
A confirmarem-se os progressos da inteligência artificial e da robótica, podemos estar a poucos anos de enfrentar o maior desafio quer alguma vez se colocou às sociedades humanas: como viver numa sociedade onde metade do trabalho dos seres humanos se tornou virtualmente obsoleto?
Claro que podemos sempre ver as coisas pelo lado positivo: no futuro trabalharemos menos, os horários serão mais reduzidos, teremos mais tempo para a cultura, para o lazer, para partilhar com os amigos e família.
Talvez! Esta utopia de um tempo em que o trabalho como necessidade daria lugar ao trabalho como liberdade era, no fundo, a base da utopia comunista de Karl Marx. John Maynard Keynes, o maior dos economistas, a seu modo, formulou a mesma utopia de um tempo em que potência das forças produtivas levaria a horários de trabalho reduzidos e, consequentemente, uma sociedade mais livre.
Contudo, sabemos que o progresso tecnológico nem sempre trouxe consigo, pelo menos no imediato, um mar de rosas social – pelo contrário, tempos de grandes mudanças tecnológicas foram, muitas vezes, tempos de grande perturbação e agitação social.
O caso histórico mais conhecido é o movimento luddita.
O movimento luddita ocorreu em Inglaterra, da região têxtil do noroeste, no início do século XIX. O nome do movimento deriva de um tal Ned Ludd, um jovem que terá destruído máquinas têxteis que, aparentemente, ameaçavam destruir os empregos industriais da região. Mais tarde, com o alargamento do movimento, falava-se de um tal King Ludd, suposto líder da revolta e que, tal como Robin Hood, viveria oculto na floresta de Sherwood. Pela descrição não parece difícil descortinar aqui os traços de uma criação mitológica.
Embora não existisse nenhum King Ludd e o movimento fosse em larga medida espontâneo e inorgânico, a verdade é que a revolta obrigou a uma intervenção militar de algum significado e levou a anos a erradicar.
Os Ludditas ficaram para a história como uma seita de gente retrógrada que tentou, com a destruição da maquinaria moderna da altura, impedir o curso do progresso.
Nada mais errado. Os Ludditas não eram, como as classes dominantes da época e os menos informados do presente, alegam, inimigos do progresso tecnológico. Em boa verdade não tinham nada contra as máquinas modernas. Não as destruíam porque vissem nelas um mal em si. Aliás, convirá dizer que a destruição das máquinas não era o único, sequer o principal, método de intervenção dos ludditas. O movimento queria apenas melhores condições de trabalho, ritmos de trabalho industrial mais humanos e, provavelmente, não teria ganho a dimensão que acabou por adquirir não fosse o caso de ter coincidido com o final das guerras napoleónicas, um período extremamente difícil para a Inglaterra e, como sempre acontece em tempos agitados, um pouco mais difícil para os mais pobres
Claro que hoje todos sabemos que os ludditas estavam errados. As máquinas modernas do início do século XIX, que estavam a revolucionar a indústria têxtil da época, não eliminaram empregos, pelo contrário, a prazo, criaram muito mais emprego dos que foram destruídos no imediato. Por outro lado, o aumento da produtividade que as máquinas permitiu, acabou por conduzir não à pauperização das massas trabalhadoras (como erradamente previu Karl Marx) mas antes, pelo contrário, ao aumento da qualidade de vida.
O trauma luddita ainda hoje persiste. Sempre que alguém pede para refletirmos um pouco sobre as consequências socias do progresso tecnológico, nomeadamente sobre o risco de novas tecnologias acrescentarem ainda mais desigualdade às sociedades de capitalismo avançado, é imediatamente classificado de luddita, ou seja, um tipo retrógrado, passadista que não vê que o progresso tecnológico é sempre e fatalmente uma coisa boa.
Mas a sombra escura do erro luddita não deve inibir-nos de pensar.
Podemos imaginar um cenário terrível, a transformação da utopia libertadora de Karl Marx ou John Maynard Keynes numa distopia assustadora.
A robotização da sociedade pode criar uma quase sociedade de castas – os que têm intervenção na criação e exploração das máquinas e os que ficam de fora desse processo. Teremos uma ínfima minoria envolvida num processo tecnológico e produtivo extremamente sofisticado ao lado de uma enorme massa humana de gente que é, pelo menos para este efeito, “dispensável”.
Não é difícil antecipar que essa minoria que cria, programa e explora as máquinas vai ter acesso a riqueza e poder enquanto a esmagadora maioria viverá dependente de um qualquer esquema se subsistência, talvez com base num qualquer modelo de redistribuição pública.
Se um tal pesadelo se tornasse realidade também podemos imaginar como uma tal sociedade seria tendencialmente violenta. Haveria com certeza muita procura para serviços de segurança, condomínios de luxo defendidos por muralhas quiçá mais tecnológicas que físicas, cyborgs que protegem os ricos contra a inveja das castas inferiores…
Vai ser assim? Sei lá! Mas por favor, não passem a vida a lembrar-me o erro dos ludditas para me impedir de pensar e de ter medo dos pesadelos.

 

Data de introdução: 2016-06-12



















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