HENRIQUE RODRIGUES

As armas e os barões (e as baronesas) assinalad@s

1 - É certo que não estamos no Século XV, nem no Século XVI, em que Portugal, com as viagens das Descobertas, deu a conhecer novas terras do vasto orbe terráqueo ao mundo ocidental, num processo que é justamente qualificado como a primeira globalização a nível intercontinental.
Os dias são hoje menos épicos para o nosso País do que nesse passado já distante e dificilmente se imaginaria um qualquer vate contemporâneo propor-se cantar os feitos “valerosos” “das portuguesas e dos portugueses” que hoje vivem nesta ponta da Europa – como fez Camões, com “Os Lusíadas”.

Nem há feitos; nem há vate.

Mas antecipo as dificuldades que teria no manuseio dos múltiplos cambiantes da língua quem ousasse tal façanha, se tivesse de obedecer ao novo cânone linguístico que o Parlamento vai provavelmente aprovar, por proposta do Bloco de Esquerda.

Desde logo, na contagem das sílabas.

Andou o pobre do Camões a contar todos os versos – e são 8.816 versos, distribuídos por 1.102 estrofes (oitavas) -, para nenhum exceder, nem a nenhum falhar, o decassílabo.

Sempre com a mesma rima, em todas as estrofes dos 10 Cantos do Poema.

Ora, se formos decompor silabicamente o primeiro verso de “Os Lusíadas”, na versão conforme com os novos modismos, que encima esta crónica, teremos 15 sílabas, mais 5 do que as 10 sílabas da praxe.

E vá lá que a última sílaba não conta, por ser átona – porque ainda estou por saber como devemos pronunciar, no registo da oralidade, o(a) @ unificador do género que hoje é utilizado com cada vez maior profusão no registo escrito, acrescentado uma nova letra – a arroba - ao nosso velho alfabeto.

E também estou em que o acrescento, por muito respeito que tenha pela justa luta das palavras pela sua emancipação, retiraria força e intensidade poética ao mesmo verso.

Não só neste verso, claro.

Imaginemos, neste tempo português de ajustamento compulsivo, às ordens da ortodoxia teutónica, numa Europa que acolhe com reserva mental os velhos Países do Sul, que um novo épico quisesse retomar o voto de Camões: “Fazei, Senhor, que nem os admirados/Alemães, Galos, Ítalos e Ingleses/Possam dizer que são pera mandados/ Mais que pera mandar, os Portugueses.”

Se, em vez de “Mais que pera mandar, os Portugueses”, o vate tivesse de escrever, de acordo com a nova ortodoxia, “Mais que pera mandar, os Portugueses e as Portuguesas”, que défice de eficácia retórica e de consistência poética não teríamos de assacar à variante …?

Certamente maior do que o défice estrutural …
 

2 – Como é da ciência geral, a língua pertence ao povo e é o povo que determina, pelo uso, a respectiva evolução.

Também os escritores, que têm por ofício o trabalho sobre as palavras, partilham esse privilégio de encaminhar a língua para novos horizontes.

As palavras da língua não constituem matéria de tráfico político de curto prazo e de vistas tão curtas como o prazo.

Como escreveu Carlos de Oliveira, “Quem vos ferir/ não fere em vão/ palavras”.

E, noutro passo de “Cantata”: “Rudes e breves as palavras pesam/mais do que as lajes ou a vida, tanto,/ que levantar a torre do meu canto/ é recriar o mundo pedra a pedra; /…/ ó palavras de ferro, ainda tento/ dar-vos a leve têmpera do vento.”

Ou ainda, do mesmo Autor, em “Sobre o Lado Esquerdo”: “Sim,/ conheço/ a força das palavras,/ menos que nada,/ menos que pétalas pisadas/ num salão de baile,/ e no entanto/ se eu chamasse/ quem dentre os homens me ouviria/sem palavras?”

3 – “Com palavras amo”, escreveu Eugénio de Andrade”, em “Ostinato Rigore”; ou ainda, em “Coração do Dia”: ”São como um cristal, /as palavras./ Algumas, um punhal,/ um incêndio,/ Outras,/ orvalho apenas,// Secretas vêm, cheias de memória./ Inseguras navegam:/ barcos ou beijos,/ as águas estremecem.//

Desamparadas, inocentes,/ leves./ Tecidas são de luz/ e são a noite./ E mesmo pálidas/ verdes paraísos lembram ainda.// Quem as escuta? Quem/ as recolhe, assim,/ cruéis, desfeitas,/ nas suas conchas puras?”

E em “Mar de Setembro”: “… Serão palavras,/isto que aflora aos lábios?/ Palavras? Este rumor tão leve/ que ouvimos o dia desprender-se? / Palavras, ou luz ainda? …”

“Menos que nada”, “mas quem dentre os homens me ouviria sem palavras”?

“Desamparadas, inocentes, leves”, “rumor tão leve”

As palavras, e as suas combinações, com que nos entendemos uns aos outros, falantes de português, constituem um corpo delicado.

Não são matéria para agendas de falsas modernidades parlamentares, aproveitando o deslumbramento que a recente proximidade do poder suscita.

Deixem as palavras para quem sabe delas…

 

4 - Li, no “Público” de sábado passado, no blog “tudo menos economia”, um texto de Francisco Louçã, agora revestido do estatuto senatorial de Conselheiro de Estado, também ele acolhido ao consenso hoje comum da invocação do Presidente da República como caução de boa conduta, lembrando com irónica indulgência a alocução deste na Sessão Solene do 25 de Abril, no Parlamento, referindo-se aos “Portugueses e Portuguesas”, em distinção elocutória de género, como argumento em benefício da virtude da proposta do BE, quanto ao pretendido Cartão de Cidadania, em sufrágio da não discriminação da linguagem em função do género.

(Estou, aliás, por saber por que razão o BE se contenta com a exigência da paridade de género na linguagem restrita à diferenciação clássica masculino-feminino, sendo certo que a identidade de género, mesmo à face da lei em vigor, já contempla um muito mais amplo e vário elenco.

Embora, sem ironia, me falte capacidade para encontrar, em códigos linguísticos de mais amplo espectro, solução cabal para essa subtil questão.

Na verdade, em algumas línguas, persiste o género neutro, além do masculino e do feminino, na flexão dos nomes das coisas.

Mas prefiguro que quem se reconheça em identidades de género diversas do feminino e do masculino não pretenda para a definição do seu estatuto uma nomeação tão anódina, cinzenta e indiferenciada como é a que vem associada ao neutro.

Aí teríamos uma nova discriminação …)

Para nos mantermos no registo do império legislativo sobre a língua, espero que o Conselheiro de Estado Francisco Louçã persevere em idêntica indulgência em relação ao novo Presidente da República, quando este retomar o debate sobre o Acordo Ortográfico, a pretexto de o mesmo Acordo não ter sido ratificado, nem por Angola, nem por Moçambique – sendo o Bloco de Esquerda, a par das editoras que, em regime de duopólio, dominam o mercado do livro escolar, como é sabido, o grande defensor, no espectro partidário, desse Acordo desasado.

Só o Brasil pretende o Acordo Ortográfico – votado em seu tempo pelos respectivos deputados, cujo nível intelectual e político tivemos ocasião de verificar, há dias, na televisão, quando os mesmos foram chamados a votar, um a um, o processo de impeachment de Dilma Roussef.

Irmãos de armas dos defensores domésticos do Acordo – e também talvez da Guiné Equatorial …


O clima geral do País só tem a ganhar com a descrispação – como lhe chama o Presidente da República.

Deixem que a língua seja o primeiro dos consensos – e principalmente não a entreguem nas mãos de aprendizes de feiticeiro (outra vez Carlos de Oliveira).

Como escreveu José Carlos Ary dos Santos:

“Vade retro/ vá de metro/ vá de burro passear/ mas não leve o alfabeto/ que se pode constipar.”

 

Data de introdução: 2016-05-06



















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