Não faço a mínima ideia o que é feito hoje da Alexandra e do seu filhote. Porém, sempre que as estatísticas nos recordam que a nível europeu Portugal é o segundo país com a maior taxa de gravidez na adolescência, vem-me à memória a Alexandra e a sua barriga proeminente fazendo abrir os botões da blusa apertada.
O passado está lá atrás. Velho e trapo, depositário de maleitas, incapaz de bondades no presente, só as amarguras do passado o corroem e lhe emprestam ainda algum fogacho de vida. Os pêlos, aqueles enormes pêlos, que lhe assomam pelo nariz e pelas orelhas como filamentos de hera a agarrarem-se a parede nua… O corcovado da pele, rendida à cobertura dos ossos, estes na ânsia de a rasgarem e de a suplantarem, parecendo ser capazes de ter vida para além dela… Raízes enfiadas em chinelos de padrão escocês, em combinação quase perfeita com o pijama que enverga diariamente das 9 às 9. Sentado no cadeirão gasto da sala, perante o atraso do advogado, soltou já para si próprio pelo menos mil impropérios.
“Eu vim de longe, de muito longe, o que eu andei p’ r’ aqui chegar”. Não pude deixar de sorrir ao ver aquela surpreendente figura, enquanto subia as escadas do Palácio da Justiça, trauteando, de forma não totalmente desajeitada, a velha música do José Mário Branco. Nada embaraçado pelo meu olhar curioso, prosseguiu a marcha, em jeito de não quer reduzir o volume, insistindo na cantoria “ quando a nossa festa s' estragou e o mês de Novembro se vingou”.
Alguém me disse depois que dores equivalentes ao “parir”, só mesmo as de pedra nos rins, ou para os mais dados aos termos técnicos, de cálculo renal. Coube-me a desdita, há alguns meses atrás, em plena crise da meia idade e das maleitas correspondentes, mal tinha acabado de digerir o jantar, sem aviso prévio nem notificação judicial avulsa, ter sido apanhado por uma dessas valentes pedradas.
Laços coloridos e embrulhos que hão-de acabar no dia 26 a aborrotar os contentores. Lojas apinhadas de gentes no desatino das escolhas que esgotam o 13º mês inventado em tributo ao comércio. O gordo barbudo vestido de encarnado contorcendo-se ridiculamente na montra ou a fingir que trepa pela varanda da sala. Melodias que ninguém trauteia mas que estão lá apenas para recordar o dia que se aproxima.
"Existe apenas um erro inato, que é a noção de que existimos para sermos felizes …Enquanto persistirmos neste erro inato … o mundo parecer-nos-á cheio de contradições". Vinda de Travasso de Barreiros, ali para os lados de Viseu, a Luísa Alexandra nunca reflectiu nesta dimensão existencialista à medida de Schopenhauer. Vivenciou no corpo e na alma a condenação precoce à infelicidade.
Passei muito recentemente pelas obras do museu Machado de Castro. No passo já cansado da subida, ative os olhos, por momentos, numa inscrição mural aí grafitada “nós somos aqueles relativamente aos quais os nossos pais nos avisaram”. Não sei se por causa da urgência desta crónica, ou devido a qualquer incompreensível fenómeno de associação de ideias, lembrei-me da Luísa.
Chegou cedo e ficou o mais próximo que pôde do epicentro da cerimónia. Devia estar em chamas por dentro, mas do olhar azul, vivo, saía uma calma de quem queria tudo ver de muito perto, com os próprios olhos. Tinha um feminino corpo robusto que os mais de cinquenta anos não conseguiram desfear. O Roteiro Para a Inclusão, há cerca de um ano atrás, levou Cavaco Silva e a comitiva até Marco de Canaveses para declarar um combate cerrado às causas e efeitos da violência doméstica e maus-tratos infantis.
Com a cabeça entre as mãos, olhos postos no chão de cimento, pernas cruzadas sobre o muro grafitado, nem parece o mesmo Marco. Escondida no bolso das calças, a correspondência retirada do quarto da mãe, endereçada pelo tribunal. Uma petição de divórcio, cheia de falsidades e coisas incompreensíveis relacionadas com falta de sexo e infidelidades.
No meu tempo, quem crescia numa aldeia, acabava sempre por assaltar um pomar mais cedo ou mais tarde. Mesmo que não gostássemos de maçãs, a companhia dos amigos fazia com que adorássemos esse fruto, desde que a sua proveniência fosse do quintal da D. Gertrudes ou do Sr. José Quinteiro. A coisa tornava-se ainda mais deliciosa quando o próprio filho do proprietário nos acompanhava e nos indicava os melhores frutos.