Valter Hugo Mãe é escritor. Escreve grandes livros com letras minúsculas. Habituou-se à liberdade que a poesia consente e agora, nos romances, continua a defender a democratização da dignidade das palavras até à casmurrice. De certa forma, paga também um reverencial tributo a José Saramago que emprestou o nome ao prémio que Valter Hugo Mãe ganhou em 2007 com o livro “o remorso de baltazar serapião”. Desse livro o Nobel da Literatura disse ser um “tsunami. não no sentido destrutivo. mas da força. (…) Tem de ser lido. Porque traz muito de novo e fertilizará a literatura.” O último romance de Valter Hugo Mãe, de 2010, chama-se “a máquina de fazer espanhóis” e é dedicado ao pai que não viveu a terceira idade. Trata da velhice, da morte, do sofrimento, da dor, de Deus, da vida num lar, dos afectos, da família, do Portugal antes e depois do 25 de Abril. É livro onde os dramas humanos, a degenerescência da idade, as tristezas, as doenças e as loucuras salvíficas dos que estão perto do fim são matérias-primas para fazer lágrimas e risos. E é admirável que alguém com 38 anos pareça ter passado já a terceira idade num lar entre velhos a lutarem com o fantasma da morte para escrever este livro. Uma leitura obrigatória para quem tem a missão de cuidar dos idosos que perderam o lugar na família. Valter Hugo Mãe nasceu em Angola, viveu em Paços de Ferreira, é formado em Direito, e pós-graduado em Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea. É autor de quatro romances e mais de uma dezena de livros de poesia. Escreve, pinta, fotografa e participa esporadicamente no grupo musical “Governo”. Vive num bairro popular nas Caxinas, comunidade piscatória de Vila do Conde, um povo de tragédia e sobrevivência, onde o escritor se embebeda de inspiração literária. Uma Grande Entrevista em destaque.
SOLIDARIEDADE – Ao cabo de dois anos de mandato, e a um de novas eleições, que balanço é possível fazer? PADRE LINO MAIA – Foram dois anos muito intensos. Devo destacar a importância da equipa directiva. Há coesão, amizade, conhecimento e dedicação. Conseguiu-se, ao longo destes dois anos, dar mais visibilidade a uma realidade extremamente bela que é a CNIS. Penso que as instituições sentiram-se bem fazendo parte dela. Paralelamente, penso que o mundo envolvente se habituou a olhar para a CNIS, vendo-a como uma organização dinâmica, com ideias, com programa, com trabalho. A CNIS está a ser respeitada, muito embora nem todas as causas da CNIS sejam patrocinadas por todas as instâncias. As instituições filiadas têm sido respeitadas. (...)
Esta é a primeira grande entrevista com o presidente da CNIS eleito no II Congresso, realizado em 27 e 28 de Janeiro, em Fátima. O Padre Lino Maia tem 58 anos, integrava o Conselho Directivo Nacional, sendo presidente da UDIPSS-Porto desde a fundação, em Abril de 2002. É ainda Presidente do Secretariado Diocesano de Pastoral Social e Caritativa do Porto e Capelão do Hospital (psiquiátrico) Magalhães Lemos. É pároco de Aldoar, freguesia da cidade Invicta e antes esteve em S. Romão de Coronado, Covelas e no Seminário do Bom Pastor onde foi superior. No rescaldo do Congresso o padre Lino Maia traça ao Solidariedade as orientações estratégicas para três anos de mandato.
VIEIRA DA SILVA, MINISTRO DO TRABALHO E SOLIDARIEDADE SOCIAL
O Ministro do Trabalho e da Solidariedade Social garante, nesta grande entrevista, que a “prioridade é, no que toca às relações com Estado, privilegiar o sector social, que alguns chamam de economia solidária”. Vieira da Silva afirma que quaisquer que sejam as alterações, mudanças e reformas nos próximos anos, as instituições terão sempre a garantia de “funcionamento regular”, em termos de modelo de financiamento. O ministro pretende, no entanto, introduzir a “igualdade plena do tratamento das famílias”, através de métodos de diferenciação. Nesta entrevista, o Ministro fala do Programa PARES, onde realça o importante contributo das instituições e assegura que o papel da economia social lucrativa não está em crescimento. A flexiseguraça e a pobreza fazem parte dos temas tratados nesta entrevista ao SOLIDARIEDADE. José António Fonseca Vieira da Silva, Ministro do Trabalho e da Solidariedade Social, nasceu a 14 de Fevereiro de 1953, na Marinha Grande, é casado e tem 2 filhos. É Licenciado em Economia pelo ISEG; Assistente Convidado do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE). Foi deputado; Secretário de Estado da Segurança Social de 1999 a 2001; e Secretário de Estado das Obras Públicas de 2001 a 2002.
MARIA DE BELÉM ROSEIRA, PRESIDENTE DA UNIÃO DAS MUTUALIDADES PORTUGUESAS
Fundada em 1979, a União das Mutualidades Portuguesas agrega actualmente cerca de uma centena de associações mutualistas. São instituições nascidas sob a égide dos movimentos operários do fim do século XIX, quando não existiam sistemas de protecção social obrigatórios e a previdência social era deixada ao acaso. O mutualismo é entendido como uma forma de organização associativa que tem como objectivo satisfazer as necessidades de protecção social dos seus associados. Em Portugal, estas instituições evoluíram essencialmente na área dos chamados benefícios pecuniários, embora também haja associações cuja acção está orientada para a saúde. Apesar do reconhecimento de utilidade pública, as mutualidades portuguesas foram submetidas às amarras e perseguições da ditadura salazarista que se apropriou de muito do património existente e despoletou várias fusões e liquidações transformando o meio milhar de associações de socorros mútuos da década de 30, na actual centena de sobreviventes. Maria de Belém Roseira, antiga ministra da Saúde do primeiro governo socialista de António Guterres (1995-1999), é a actual presidente da União das Mutualidades Portuguesas, eleita para o triénio 2006-2008 em eleições marcadas pela impugnação. A dirigente limitou-se a um mandato de gestão, embora seja reconhecida oficialmente pelo governo enquanto líder do movimento mutualista português. Com 59 anos, Maria de Belém Roseira tem larga experiência na área social. Casada, natural do Porto, licenciou-se em Direito pela Universidade de Coimbra. É membro dos órgãos dirigentes de diversas instituições de solidariedade social, como por exemplo, a Misericórdia de Lisboa e a APAV, e já desempenhou diversos cargos na administração pública. É actualmente deputada pelo Partido Socialista na Assembleia da República. Uma Grande Entrevista a ler nas centrais.
MANUEL LEMOS, PRESIDENTE DA UNIÃO DAS MISERICÓRDIAS PORTUGUESAS
A União das Misericórdias Portuguesas fez recentemente 30 anos. Podem ser divididos em três períodos: o período da sobrevivência, que correspondeu aos anos do mandato do Padre Virgílio Lopes; um segundo momento, que pode ser identificado com grande parte do mandato do padre Vítor Melícias, correspondendo ao período da afirmação da identidade da natureza das Misericórdias; o último mandato de Vítor Melícias e os que Manuel Lemos gostaria de protagonizar podem ficar para a história da União das Misericórdias como o período da consolidação. “Isto é: temos que demonstrar a nossa incontornabilidade na sociedade portuguesa perante os novos desafios que este primeiro quartel do século XXI impõe. A nossa sociedade mudou. Há um conjunto de questões para as quais as Misericórdias têm que se preparar. As Misericórdias foram muito viradas para a gestão dos equipamentos. Temos que sair para a rua pois muitos dos problemas sociais hoje estão na rua. Já nem falo dos sem-abrigo, mas sobretudo nas questões dos centros de dia e do apoio domiciliário.” Manuel Lemos foi eleito presidente da União das Misericórdias Portuguesas em Novembro de 2006, sucedendo ao padre Vítor Melícias, que cumpriu 15 anos à frente da Instituição. Manuel Lemos é o terceiro presidente. Manuel Augusto Lopes de Lemos tem 57 anos, é natural do Porto e é licenciado em direito. Foi Deputado, Presidente da Administração Regional de Saúde do Porto, chefe de gabinete da Ministra da Saúde, Leonor Beleza, Comissário Regional do Norte da Luta Contra a Pobreza, Vice-Presidente do Comité “Poverty Alleviation” das Nações Unidas, representante de Portugal no Comité Para os Assuntos Sociais da União Europeia. Desempenhou muitas funções em Instituições do Sector Social, como, por exemplo, Vice-Provedor da Santa Casa da Misericórdia do Porto, Presidente da Comissão de Saúde da União das Misericórdias Portuguesas e Presidente do Grupo Misericórdias Saúde, entre muitas outras. Uma Grande Entrevista para ler na íntegra.
A vocação católica foi semeada bem cedo na terra fértil da família. Manuel Clemente nasceu em Torres Vedras em 16 de Julho de 1948, fruto de pais católicos, benzido no baptismo por um tio padre franciscano. Na juventude esteve continuamente envolvido em movimentos de cariz religioso - a Acção Católica, Escutismo -, mas escolheu a História para primeiro curso. Só mais tarde ingressou no seminário como via para alcançar o sacerdócio. Foi ordenado padre aos 31 anos. Tentou sempre acumular a função de pedagogo e professor interessado pelos ensinamentos, revelações e pela memória presente do passado histórico. É Bispo do Porto há um ano. De aspecto simples, afável, bem disposto e inteligente, D. Manuel Clemente tem um discurso seguro, estruturado, fluente e complexo. Nesta grande entrevista ao Solidariedade D. Manuel Clemente defende a “redefinição cristã e a reconfiguração da comunidade”. Na sociedade cada vez mais secularizada é preciso que a proposta da Igreja seja clara. É preciso saber o que é ser cristão.
PADRE JOSÉ MAIA, O TERCEIRO PRESIDENTE DA UNIÃO DAS IPSS
Em 1988 o padre claretiano José Martins Maia foi escolhido para se candidatar à presidência da União por um mero acaso. A partilha do mesmo espaço levou a que fosse convidado para liderar uma lista institucional. No congresso ficou surpreendido quando deu conta que havia outra lista encabeçada pelo anterior presidente. Venceu. Esteve à frente da UIPSS durante 14 anos consecutivos. Desse período ficou-lhe a fama de ser carismático, liderante, impulsivo, mediático, combativo e caótico. Reconhece que deu um cunho presidencialista à União, mas afirma que o trabalho era colegial e a lealdade uma constante. Ainda hoje na CNIS estão dirigentes que pertenceram às equipas de José Maia. A imagem da UIPSS confundia-se com a sua. Enfrentou ministros e secretários de estados de governos de quase todos os partidos e conseguiu alcandorar a União ao estatuto de parceiro social nas negociações com o poder central. Abandonou o cargo de presidente em 2003 por razões de saúde, mas também porque sentia que estava a repetir-se. Actualmente, com 65 anos, José Martins Maia é presidente da Fundação Filos, que desenvolve programas de intervenção social; é presidente da Direcção do Colégio do Carvalhos; é presidente do conselho de administração da Fundação Evangelização e Culturas; é Vigário Paroquial da Nossa Senhora da Areosa no Porto; é membro do governo central dos claretianos em Portugal, Angola e S. Tomé e Príncipe, com o pelouro da cooperação. Continua a acompanhar a actividade da CNIS e assina uma crónica mensal no jornal Solidariedade. Foi presidente da Distrital do Porto das IPSS e, depois, durante 14 anos presidente da UIPSS. Leia a Grande Entrevista com o padre José Martins Maia.
ERNESTO CAMPOS – O SEGUNDO PRESIDENTE DA UNIÃO DAS IPSS
No dia 17 de Novembro de 1984, no salão do Centro Social de S. José, na cidade de Coimbra, 137 instituições elegeram uma lista cuja direcção era encabeçada por Ernesto Marques Campos. O segundo presidente da União das Instituições Particulares de Solidariedade Social, Licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto, era professor e desempenhava funções pedagógicas na Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental, APPACDM. A escolha de um laico para a liderança da UIPSS pretendia ser um sinal de abertura a toda a sociedade civil e, ao mesmo tempo, desmontar a imagem de que a solidariedade era um exclusivo da Igreja Católica. Durante três anos a equipa coordenada por Ernesto Campos apostou na continuidade da acção social e tratou de credibilizar o organismo que tutelava as instituições em Portugal. Tarefa árdua e muito exigente para a qual não havia meios suficientes. Naquele tempo era preciso catequizar os políticos que não entendiam o trabalho específico das IPSS, afirma Ernesto Campos nesta Grande Entrevista. Uma das marcas de que se orgulha, ainda hoje, de ter legado foi a concepção do jornal Solidariedade que nasceu para combater a opacidade a que a UIPSS estava condenada. Ernesto Campos foi jornalista da Rádio Renascença, colaborador da Rádio Festival, do Porto, e de vários jornais e revistas sobre temas de educação e solidariedade social (Miriam, Voz Portucalense). Foi presidente da UIPSS de 1984 a 1987. Ernesto Campos tem 73 anos e está reformado.
CÓNEGO ORLANDO MOTA E COSTA, 1º PRESIDENTE DA UNIÃO DA IPSS
O Cónego Orlando Mota e Costa foi eleito o primeiro presidente da União das Instituições Privadas de Solidariedade Social, no dia 23 de Maio de 1981, numa Assembleia-geral realizada no Centro de Caridade de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, no Porto. Foi presidente da Direcção durante um mandato de três anos. No dia 17 de Novembro de 1984 passou para a liderança da Mesa da Assembleia-geral onde se manteve durante mais um triénio. Quando era pequeno queria ser médico ou arquitecto, seguindo uma vocação artística que sentia nascer. Acabou por decidir ser padre, sendo ordenado, com 23 anos, por D. António Ferreira Gomes, Bispo do Porto. Trabalhou durante 13 anos nos Organismos de Acção Católica, foi coadjutor e depois assistente diocesano da Juventude Operária Católica e dos Organismos Rurais de Acção Católica. Foi nomeado pároco de Cedofeita em 1969, onde se mantém e onde desenvolve uma actividade assinalável de recuperação de património e dedicação às artes. É cónego da diocese do Porto, foi presidente da Comissão de Património e Cultura e, actualmente, faz parte do Conselho Económico. O Cónego Orlando tem 75 anos. Nesta Grande Entrevista ao Solidariedade, recorda esse tempo em que todo o trabalho organizativo estava por fazer e em que era preciso explicar ao poder a vocação das IPSS. Passados mais de 25 anos algumas dificuldades de relacionamento com o Estado ainda se mantêm.