Reencontro
“Eu vim de longe, de muito longe, o que eu andei p’ r’ aqui chegar”.
Não pude deixar de sorrir ao ver aquela surpreendente figura, enquanto subia as escadas do Palácio da Justiça, trauteando, de forma não totalmente desajeitada, a velha música do José Mário Branco.
Nada embaraçado pelo meu olhar curioso, prosseguiu a marcha, em jeito de não quer reduzir o volume, insistindo na cantoria “ quando a nossa festa s' estragou e o mês de Novembro se vingou”.
Com pena minha, acabaram-se-me as escadas da descida e a ele as da subida.
No resto do percurso para o gabinete, dei por mim, em pensamento, a prosseguir nos versos - “e então entendi, foi um sonho lindo que acabou, houve aqui alguém que se enganou”.
Entendi “o tanas”; a que propósito, neste mundo cinzento, urbano e de conflito permanente, pode alguém ainda ter energia para uma tal cantoria, dentro do tribunal? Já ninguém canta a não ser numa sala de espectáculos, a que propósito, então, pelas escadas do tribunal?
Não fora um feliz (?) acaso, ter-se-me-ia varrido da memória a música e a figura.
Julgava-se um caso de vários roubos, um deles realizado sob a ameaça de canivete a uma jovem universitária do curso de Matemática, feito ali para os lados de uma rua da “Alta”, curiosamente baptizada (a rua, está bom de ver) com o nome do curso professado pela jovem.
O arguido, quase tão jovem quanto a vítima, preso preventivamente há cerca de 5 meses, confessou espontaneamente os factos por que vinha acusado.
Seguiu-se o rol das (poucas) testemunhas apresentadas pela defesa e que antecipadamente se previa virem atestar as excelentes qualidades humanas do rapaz.
E quem havia de ser logo a primeira? Sim, adivinhou, a figura que alguns dias antes me havia surpreendido.
Aos costumes respondeu ser o pai do jovem arguido, mas, se pensam que foi para ali chorar baba e ranho pela má sorte do rapaz, estão redondamente enganados.
Ao invés, sim, muito ao invés...
- “Sr. juiz, se me pergunta se ele é bom filho, digo-lhe, com esta voz que Deus me deu vai para quase 60 anos, que sempre o foi, nunca me faltou ao respeito nem à memória da mãe – que Deus a tenha -; se me pergunta se deve continuar preso, respondo-lhe sem também hesitações – que o fique até se curar da porcaria que passou a enfiar nas veias e que deu cabo da vida de ambos”.
Sem que ninguém tivesse tido tempo de o interromper (apesar da evidente aflição da defensora nomeada oficiosamente), prosseguiu:
- Sr. Juiz, apesar de com ele sempre ter vivido, sabe quando voltei reencontrar o meu filho, o meu verdadeiro filho, e não aquela coisa cheia de “branca “ e de “castanha”? Digo-lho, alguns dias atrás, quando tive a coragem para o visitar na prisão. Se a prisão for capaz de, em definitivo, fazer regressar o meu verdadeiro filho, ficaremos, eu e ele, à espera o tempo que for necessário.
Findo o julgamento, no percurso para o gabinete, descoberto o mistério acerca da alegria daquela figura enquanto subia as escadas do tribunal, ao mesmo tempo em que, pelo canto do olho, perseguia ainda o afecto de pai e filho num abraço de despedida, nestas tramas que o imaginário cria, fizeram-me outro sentido os versos daquela canção “e então olhei à minha volta, vi tanta esperança andar à solta, que não hesitei, e os hinos que cantei foram feitos do meu coração”.
* Magistrado Judicial
Data: 2007-05-19