Aquela escritura
O passado está lá atrás.
Velho e trapo, depositário de maleitas, incapaz de bondades no presente, só as amarguras do passado o corroem e lhe emprestam ainda algum fogacho de vida.
Os pêlos, aqueles enormes pêlos, que lhe assomam pelo nariz e pelas orelhas como filamentos de hera a agarrarem-se a parede nua…
O corcovado da pele, rendida à cobertura dos ossos, estes na ânsia de a rasgarem e de a suplantarem, parecendo ser capazes de ter vida para além dela…
Raízes enfiadas em chinelos de padrão escocês, em combinação quase perfeita com o pijama que enverga diariamente das 9 às 9.
Sentado no cadeirão gasto da sala, perante o atraso do advogado, soltou já para si próprio pelo menos mil impropérios.
- Não lhe deve bastar o que lhe paga o Estado pelo tal apoio judiciário; se as notas ainda me enchessem a carteira haveria de ter chegado a horas…
À presença da D. Adelina ajeitando-lhe a manta ao regaço, nem um esboço de agradecimento.
Para o Sr. Gilberto a gratidão é sentimento que não passa pelas veias esclerosadas que lhe levam alimento ao coração.
Esfumou-se…escondeu-se no arquivo do cartório notarial, juntamente com o livro onde ficou exarada a maldita escritura.
Nem o eco da voz daquela que foi companheira de tantos anos o sobressalta.
- Velho tonto, a doar tudo à Santa Casa! Como se assim ficasses com salvo-conduto para o céu!
O Sr. Gilberto foi já por duas vezes a tribunal. Nunca antes na sua vida tinha entrado nessas casas…
Ambas a propósito daquela acção que não ata nem desata. Como se ele ainda tivesse tempo para esperas.
Na profundidade da sua consciência, nos dias em que ainda lhe assoma alguma clarividência, o Sr. Gilberto sabe que não tem razão. Sabe que está a receber por excesso tudo quanto lhe foi prometido nessa escritura.
Não estaria no Lar, não teria a farinha láctea ao pequeno-almoço, o bife passado e os cuidados da D. Adelina.
Mas, e isso que interessa, que interessa não ter razão!
Pensar o seu velho casarão transformado em estalagem para turismo rural, em total ausência do velho dono que lhe ajeitou as telhas tocadas pela invernia, retocou as paredes a cal praticamente todos os anos, afagou quase diariamente cada uma das laranjeiras que ainda o cercam, é como ferro quente em cubo de gelo.
É a mágoa de viver na ausência que o consome.
A mágoa de perecer como folha de Outono, sem que ninguém recorde os tempos em que verdejante aceitou o sol como destino, a brisa suave como carícias e o temporal como paixão.
Velho tonto, como se a vida fosse salvo-conduto para o céu!
Data: 2007-04-03